quinta-feira, 7 de julho de 2011

Textos de apoio 1º semestre/2011 (3º ano)

Neste espaço, pretendemos possibilitar a todos os alunos o acesso ao conteúdo dos textos de apoio fornecidos pelos estagiários do CAp. Normalmente esses textos são reproduzidos e entregues apenas aos alunos da turma cujo estagiário fará sua regência, isso significa, que as outras turmas não terão acesso a este material de apoio ainda que estejam tratando do mesmo conteúdo. Esperamos que este post seja útil para todos.

Polarização política ( Danilo Bantim)
Direita e Esquerda
É bastante comum vermos as expressões Direita e Esquerda sendo usadas para designar grupos antagônicos em um jogo político. Mas o que vem a ser, de fato, cada um desses termos?

Tudo começou na França do final do século XVIII. Seu sistema político era composto por três grupos, os chamados Estados Gerais: o clero, a nobreza e o terceiro estado, formado pelo “resto” da população (banqueiros, comerciantes, médicos, artesãos, etc.). O terceiro estado era o único que tinha a obrigação de pagar os impostos, além de terem inúmeras limitações, como o fato de não poderem ocupar cargos públicos, por exemplo. Foi assim, em razão da adoção de um modelo político injusto e dos privilégios dados a uma pequena parte da população, que se iniciou a Revolução Francesa.
O que originou os termos Direita e Esquerda foi o fato dos membros do terceiro estado sentarem à esquerda do rei enquanto os do clero e da nobreza sentavam à direita. Foi assim que se originaram os conceitos: Direita é um grupo conservador e Esquerda é um de oposição.
De uma forma generalizada e superficial, os conservadores dão ênfase ao liberalismo econômico e na eficiência da economia, ligando-os ao capitalismo, enquanto os esquerdistas possuem seu foco nos valores da igualdade e da solidariedade, o que os aproxima do socialismo. O fato de ser da Direita ou da Esquerda é algo relativo e não permanente, uma vez que um partido, por exemplo, pode estar de um lado em um momento e de outro em outra instância, agindo conforme um jogo de interesses. Por isso, muitos consideram estas definições simplificadoras e enganosas, uma vez que os valores de cada grupo podem se tornar bastante contraditórios. Assim:
“Nossa visão deve atingir a complexidade de uma realidade em que haja direita na esquerda, esquerda na direita, ambigüidade, desvio, transformação. Basta lembrar que o fascismo, originariamente, veio da direita e da esquerda”. Edgar Morin[1]
[1] Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum; é um antropólogo, sociólogo e filósofo francês
Totalitarismo
O totalitarismo é uma experiência política que se refere a alguns tipos de governo estabelecidos na Europa pós-Primeira Guerra. O termo foi primeiramente cunhado pelo filósofo Giovanni Amendola, que definiu o regime totalitário enquanto auge de um processo onde um indivíduo ou partido político passa a controlar o Estado. No entanto, o totalitarismo também pode ser definido por meio de uma relação com a sociedade onde os indivíduos têm suas vidas intimamente controladas pelo governo.
Partindo desse ideal onipresente que o Estado totalitário ganha em seu discurso formal, podemos pontuar genericamente alguns dos traços mais recorrentes a esse tipo de governo. Na esfera política, o totalitarismo reprime sistematicamente a existência de diferentes grupos políticos divergentes da orientação oficial. Por isso, tais governos costumeiramente defendem a adoção de um sistema unipartidário, sendo nenhum outro grupo político reconhecido.
Na economia, vemos a instalação de uma doutrina de caráter visivelmente intervencionista. A participação direta do Estado na economia seria um ponto onde qualquer outra forma de ordenação das atividades produtivas seria contrária ao fortalecimento da economia e do próprio governo. Geralmente, esse tipo de intervenção se manifesta na implantação de empresas estatais e na regulação direta dos empreendimentos da iniciativa privada.
Tendo a concentração de poderes como um de seus traços mais característicos, os governos totalitários estabelecem as forças armadas e policias como uma extensão do Estado. Frente aos possíveis opositores políticos, a polícia tem como papel fundamental garantir a submissão ao governo utilizando de violência física, tortura, prisões arbitrárias, espionagem, censura e exílio. As forças armadas, complementando essa ação, devem estar fortemente munidas contra qualquer ameaça externa.
Fora essas manifestações diretas de seu poder de ação, o totalitarismo também conta com uma ideologia sistematicamente reafirmada por meio de agências de propaganda. Por meio de uma propaganda massiva, o regime repete sistematicamente uma visão histórico-ideológica da nação. Geralmente, os líderes totalitários buscam reconstruir um “passado glorioso” que deve ser incessantemente glorificado enquanto exemplo a ser retomado. Nesse aspecto, a veneração a símbolos e heróis nacionais reforça tal interpretação do passado. O nacionalismo é comemorado por meio de manifestações públicas, feriados nacionais, cartazes, canais de comunicação do Estado e políticas educacionais. Além de supervalorizar um passado de glórias, a ideologia totalitarista oferece uma perspectiva de futuro onde a unidade oferece um porvir próspero e soberano.
Retomando os traços característicos do regime totalitarista, podemos visualizar alguns governos onde esse tipo de ação tomou forma. Entre os mais conhecidos governos totalitaristas podemos destacar o nazismo alemão, o fascismo italiano e o stalinismo soviético. O totalitarismo, sendo uma forma ideal de governo, também teve em cada uma dessas nações características que os diferenciaram.
Identificado como totalitarismo de extrema esquerda, o stalinismo tem como característica principal a base ideológica do socialismo. Além disso, podemos ainda algumas outra características, como a abolição da propriedade privada, a coletivização obrigatória dos meios de produção agrícola e industrial, e a supressão da religião da esfera política. Já o nazi-fascismo é identificado como o totalitarismo de extrema direita, sendo assim, se utiliza da base do capitalismo e combatem os comunistas a todo custo. Possuem apoio da burguesia industrial do país, é instalada uma tutela por parte do Estado sobre as organizações sindicais e sua ideologia é fundada em valores tradicionais, como valores culturais e religiosos. Importante ressaltar que existe uma diferença entre a ideologia nazista e a fascista, já que o nazismo possui uma conotação claramente racista, da formação de uma comunidade de seres da mesma raça.
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Texto: O dualismo Esquerda/Direita e as experiências Totalitárias no século XX. (Hélio de Abreu)
Direita X Esquerda

Desde sua origem, que remonta a Revolução Francesa(1789), a dicotomia Esquerda/Direita tem tomado conta do linguajar político mundial. Tais expressões deixaram de ser um simples posicionamento espacial para se tornarem valores norteadores, ideais políticos. Mas, afinal, o que vem a ser exatamente “Direita” e “Esquerda”? O que significa dizer que se é de “Direita” ou de “Esquerda”? Mais ainda: é possível compreender a realidade política unicamente por meio desses conceitos?

Primeiramente, é preciso lembrar que as idéias Esquerda/Direita estão relacionadas com outra dicotomia: Socialismo/Capitalismo. Uma pessoa de “Esquerda” é alguém que defende a instauração de uma sociedade Socialista, é uma pessoa que acredita que os problemas apresentados na sociedade capitalista só poderão ser solucionados com uma subversão da ordem estabelecida, através da almejada “Revolução”. Os socialistas acreditam que, no sistema econômico vigente, o trabalhador se vê numa condição de escravo do interesse do capital, e só poderá alcançar a verdadeira liberdade com o advento do socialismo e, posteriormente, do comunismo[1].
Outra característica importante da relação Esquerda-Socialismo é valorização do supra-nacionalismo, ou seja, os conceitos de “patriotismo” e “nacionalismo” são considerados como invenções burguesas que servem unicamente para mascarar a distância entre o proletariado(classe dominada) e a burguesia(classe dominante). A “Esquerda” também é considerada como detentora de uma moral mais “progressista”, se afastando dos padrões morais da família, que é tratada como uma instituição cristã/burguesa. Os direitos das mulheres, dos homossexuais e de diversas outras minorias que seriam reprimidas no capitalismo, são “bandeiras” constantemente associadas à “Esquerda”.
Já o termo “Direita” refere-se ao pensamento que acredita na superioridade do sistema capitalista, tanto em relação à capacidade de produção de riqueza, como também pela possibilidade de liberdade individual que o sistema proporciona. Os problemas do capitalismo, dentro dessa perspectiva, só podem ser superados com o ajuste no próprio sistema, e que qualquer tentativa de revolução tende a intensificar os males que tentam combater. Nacionalismo, apego aos valores familiares tradicionais e a liberdade individual são algumas das características mais importantes do pensamento de Direita.
Problematizando um pouco



Depois de discutirmos os conceitos, é preciso agora perguntar se faz sentido enxergar a realidade política seguindo unicamente esta perspectiva conceitual, oriunda da dicotomia Direita/Esquerda? Será que esses conceitos são suficientes para explicar as variadas posições políticas que o mundo contemporâneo apresenta?





Um elemento importante que devemos estar atentos é que essa dicotomia remete às estruturas da metafísica que funcionam a partir da contraposição de duas idéias contrárias e que uma delas tem preponderância sobre a outra: Bem/ mal, Justiça, injustiça, Essência/aparência, etc. Ou seja, quando falamos de Direita/Esquerda tendemos a nos identificar com um dos dois lados tratando-o como a única opção legítima enquanto “satanizamos” o outro, tal como, necessariamente, optamos pelo Bem, Justiça, Essência, enquanto rejeitamos os seus opostos.
No Brasil, principalmente devido aos traumas que a ditadura de Direita causou ao país, dificilmente alguém se auto-proclama como sendo de Direita. Pelo contrário, o termo “Direita” passou a ser considerado praticamente uma ofensa, sinônimo de autoritário, reacionário, antidemocrático, etc. Os partidos políticos que são denominados por outros como sendo de direita procuram imediatamente desmentir essa acusação dizendo-se que, na verdade, são ”Centro”. Já nos EUA, onde os conceitos de liberdade e sucesso individual são profundamente enraizados no pensamento da população, são poucos os que assumem publicamente que são de “Esquerda”.
Como desdobramento dessa similaridade com as estruturas metafísicas, é possível notar que a forma com que os integrantes dos movimentos, tanto de esquerda quanto de direita, se relacionam com seus líderes é extremamente próxima às religiões messiânicas. Hitler, Stalin, Mussolini, Che, não são considerados pelos adeptos dos seus movimentos políticos simplesmente como líderes. Eles são muito mais do que isso, eles são visionários, guias, profetas detentores de um saber diferenciado que conduzirão o povo a uma condição melhor, algo muito similar a idéia de terra prometida.
Assim, um dos sérios perigos do pensamento dicotômico/metafísicos em geral é cairmos no maniqueísmo. Quando se pensa o jogo político a partir de um horizonte conceitual marcado pela oposição “Direita”X“Esquerda”, tende-se a enxergar o seu lado como sendo a única posição correta, justa, que visa o bem do povo. Por outro lado, o adversário político não é um indivíduo com um conjunto de idéias divergentes, mas é um inimigo que deve ser combatido ferozmente e, se possível, aniquilado(politicamente ou, em casos extremos, fisicamente), pois ele encarna tudo o que é mais desprezível.
O Totalitarismo de Direita e de Esquerda
Quando olhamos mais detidamente as experiências de Estados denominados Totalitários, fica nítido que, pelo menos em relação a alguns aspectos fundamentais, as diferenças entre Esquerda e Direita não são tão evidentes assim. Alemanha nazista, Itália fascista, URSS e China comunista são exemplos de estados totalitários, sendo os dois primeiros de direita e os últimos de esquerda. Porém, o que vem a ser Estado Totalitário? E de que forma podemos aproximar os conceitos Esquerda/Direita a partir desta manifestação política?
O Totalitarismo deve ser compreendido como uma forma de governo que se funda na dominação e manipulação das massas, e que essas estão alinhadas com a ideologia do governo. Num Estado totalitário o governo instaura uma rede de vigilância constante dos indivíduos e conta com o auxílio da população neste processo. As liberdades individuais são cerceadas em nome de um “Bem comum” e todo aquele que se manifestar contra essa política é considerado como traidor e, deste modo, deve ser silenciado. O Estado participa e indica as diretrizes de todos os setores da sociedade, inclusive daqueles que normalmente são considerados privados: religião, natalidade, lazer, vestimenta, etc.
Não se pode confundir um Estado Totalitário com outras formas de governo não-democráticos, como o Despotismo e o Autoritarismo. Nesses últimos, o governo está concentrado nas mãos de um sujeito ou em um grupo que aparelha o Estado contra a população. É uma espécie de movimento de fora para dentro. Já no Totalitarismo, o Estado aparece em sintonia com as aspirações da população(ou pelo menos com a maior parte dela) num movimento de dentro para fora. Hanna Arendt(1906-1975) em seu livro “As origens do totalitarismo" (1951) defende que esse sistema político nasce de um sentimento de solidão organizada das massas que, de forma totalmente acrítica em relação ao poder estatal, aceita o controle imposto pelo mesmo em nome de uma esperança de melhores condições de vida e da elevação da nação. Segundo Arendt, o Totalitarismo baseia-se na ideologia e no terror para se atingir um domínio total. A violência é banalizada, sistematizada e racionalizada tirando dos que são vitimados qualquer relação com a humanidade.
O terror imposto pelos governos totalitários foi gigantesco, tanto os de Direita como os de Esquerda. Mas, constantemente, vemos debates em torno da questão de qual orientação teria sido mais bárbara. Como se dizer que Alemanha nazista matou menos pessoas do que o comunismo da URSS justificasse o massacre cometido. Será então que faz sentido debater qual orientação foi pior do que a outra?
Todavia, de que forma Totalitarismo e Esquerda/Direita devem ser relacionados? Existe uma relação necessária entre eles? O Totalitarismo é uma consequência inevitável quando se é implantado um Estado que se assume integralmente de “Direita” e “Esquerda”? Se Direita e Esquerda são valores irreconciliáveis não se pode concluir que somente a partir da eliminação de um é possível a implementação dos valores do outro? Sabendo que não existe resposta pronta e fácil a essas questões, direcionar a reflexão a esses problemas é uma das tarefas da Filosofia.
BIBLIOGRAFIA:
ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. 4 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
[1] - Segundo os princípios marxistas, Socialismo deve ser entendido como a organização sócio-econômica(ou modo de produção) em que o Estado é o detentor dos meios de produção. Já o Comunismo é a etapa posterior em que o estado é dissolvido e os trabalhadores são proprietários e controlam todo o processo produtivo.



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Texto: Existencialismo em Sartre (Raphaela Bastos)
Existencialismo
O existencialismo pode ser definido, como um conjunto de doutrinas filosóficas que tiveram como tema central a análise do homem em sua relação com o mundo - O indivíduo existente é a única base para uma filosofia significativa - em oposição a filosofias tradicionais que idealizaram a condição humana. Apesar de sua fama de pessimista e lúgubre, o existencialismo na verdade é apenas uma filosofia que não faz concessões: coloca sobre o homem toda a responsabilidade por suas ações. Podemos listar alguns dos postulados principais dessa corrente filosófica que são:
-A primeira é o ser humano enquanto indivíduo, e não com as teorias gerais sobre o homem. Há uma preocupação com o sentido ou o objetivo das vidas humanas, mais que com verdades científicas ou metafísicas sobre o universo.
- O homem não foi planejado por alguém para uma finalidade, como os objetos que o próprio homem cria, mediante um projeto. O homem se faz em sua própria existência.
- O mundo, como nós o conhecemos, é irracional e absurdo, ou pelo menos está além de nossa total compreensão; nenhuma explicação final pode ser dada para o fato de ele ser da maneira que é;
- A falta de sentido, a liberdade consequente da indeterminação, a ameaça permanente de sofrimento, da origem à ansiedade, à descrença em si mesmo e ao desespero; há uma ênfase na liberdade dos indivíduos como a sua propriedade humana distintiva mais importante, da qual não se pode fugir.
O Existencialismo de Jean Paul Sartre
Em sua filosofia, Sartre dizia que no caso humano, e só no caso humano, a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma "essência" posterior à existência. Sartre faz uma reflexão profunda sobre a liberdade humana, desde sua condição de existência até a suas consequências diretas sobre a vida do indivíduo. Desta maneira, refletir sobre o sujeito livre em uma sociedade que coloca a liberdade como um valor central, é pensar no fazer humano, nas suas relações, ou seja, no seu encontro com o outro, na possibilidade de respeitar ou não a liberdade do outro e assumir uma moral.
O Ser Em-si
Do Em-si somente se pode dizer que ele “é aquilo que é”. Isso significa que o Em-si é opaco para si mesmo”, nem ativo nem passivo, sem qualquer relação fora de si, o Em-si simplesmente é. Não possui potencialidades nem consciência de si Ele está encerrado no mundo, e é indissociável dele.
“Consideremos um objeto fabricado, como, por exemplo um livro ou um corta-papel; esse objeto foi fabricado por um artífice que se inspirou em um conceito; tinha, como referenciais, o conceito de corta-papel assim como determinada técnica de produção, que faz parte do conceito e que no fundo, é uma receita. Desse modo, o corta-papel é, simultaneamente, um objeto que é produzido de certa maneira e que, por outro lado, tem uma utilidade definida: seria impossível imaginarmos um homem que produzisse um corta-papel sem saber para que tal objeto iria servir. Podemos assim afirmar que, no caso do corta-papel, a essência – ou seja, o conjunto das técnicas e das qualidades que permitem a sua produção e definição – precede a existência; e desse modo, também, a presença de tal corta-papel ou de tal livro na minha frente é determinada. Eis aqui uma visão técnica do mundo em função da qual podemos afirmar que a produção precede a existência.” (J.P. Sartre,O existencialismo é um humanismo).
O Ser Para-si
Um Para-si é consciente de si próprio, é capaz de realizar relações temporais e funcionais entre os seres Em-si, e ao fazer isso, constrói um sentido para o mundo em que vive.Um Para-si desfruta de uma espontaneidade criadora. O Para-si é o nada, mas não podemos entender este nada sartriano como a ausência de entes, mas como a pura possibilidade de que eles venham a ser; ele é a estrutura da própria consciência que, como tal, é a possibilidade de significação humana.
“(...) O que significa, aqui, dizer que a existência precede a essência? Significa em primeira instância, que o homem existe e encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que fizer de si mesmo.” (Sartre).
Dadas essas definições para o Em-si, e o Para-si, percebemos a diferença crucial entre eles. O Ser-em si, é um projeto determinado, isto é, antes que este possa vir a existir, é preciso que alguém – no caso o homem – pense em uma necessidade e a partir dai crie um ser que possa atender a esta necessidade. O Ser para-si, é o próprio homem, pois só este tem a capacidade de pensar e assim se auto determinar. Não há nenhuma natureza humana ou Deus que nos defina como homens. Primeiro existimos, e só depois constituímos a essência por intermédio de nossas ações no mundo. Nós somos, o nosso próprio “projeto”.
A questão da liberdade- responsabilidade
“Porém se realmente a existência precede a essência, o homem é responsável pelo que é. Desse modo, o primeiro passo do existencialismo é o de pôr todo homem na posse do que ele é, de submetê-lo a responsabilidade total de sua existência.”.
Sartre defende que o homem é livre, pois se auto determina. Isto significa dizer que sempre existirão infinitas possibilidades de escolha; a vida nos obriga a escolher entre vários caminhos possíveis, mas nada nos obriga a escolher uma coisa ou outra. Porém, isto nos torna responsáveis por tudo que está a nossa volta. Somos inteiramente responsáveis por nosso passado, nosso presente e nosso futuro. Ainda assim, a liberdade é sob certo aspecto limitada. Eu não posso escolher nascer no Brasil ou nos EUA, pobre ou rico, branco ou preto, saudável ou doente, sou "jogado" no mundo, Existo. Mas para Sartre, estas limitações não diminuem a liberdade, pelo contrário, são elas que tornam essa liberdade possível, porque determinam nossas possibilidades de escolha, e impõem, na verdade, uma liberdade de eleição da qual não podemos escapar.
“Ao afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que escolhendo-se, ele escolhe todos os homens. De fato não há um único de nossos atos que criando o homem que queremos ser, não esteja criando, simultaneamente, uma imagem do homem tal como julgamos que ele deva ser. Escolher ser isto ou aquilo é afirmar, concomitantemente, o valor do que estamos escolhendo, pois não podemos nunca escolher o mal; o que escolhemos é sempre o bem e nada pode ser bom para nós sem o ser para todos.”
Não se poderia dizer "sou assim porque é da minha natureza" ou "ele é assim porque Deus quer". Ao compreender que dentre todas as possibilidades dadas, a opção por uma delas, é uma escolha sua, e só sua, se percebe o grande peso da liberdade. Mesmo quando você pensa estar optando por não decidir sobre algo, já existe a decisão de se abster. E é por isso que, o homem esta condenado a ser livre.
O peso da liberdade e a “Angustia”
“Em primeiro lugar, como devemos entender a angustia? O existencialista declara frequentemente que o homem é angustia. Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e que se da conta de que ele não é apenas ser, mas também um legislador que escolhe simultaneamente a si mesmo e a humanidade inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda responsabilidade.”
Sartre apresenta a ideia existencialista de angústia. O homem, ao perceber que sua escolha envolve não apenas a si mesmo, mas toda humanidade e que a responsabilidade dessa escolha é inteiramente sua, se sentirá angustiado. Só o homem de má fé consegue disfarçar a angústia, dissimulando a sua responsabilidade por si e por toda humanidade. Os próprios atos de dissimular e mentir implicam em uma escolha. Ao atribuir a responsabilidade a outrem, estamos escolhendo a mentira não só para a própria existência, como para a de todos os homens. O homem que nega a angústia tem na angústia a sua própria forma de existir. Essa Angústia no entanto, não se trata de algo que nos atinge por meio de fatos exteriores. É preciso compreender essa Angustia como algo existencial, que não podemos precisar, mas sim o pleno conhecer, a apreensão reflexiva de si.
Sartre justifica porque seu existencialismo é um humanismo. Humanista por ser o homem o único responsável por suas ações. E existencialista porque, na medida que o homem projeta-se para fora de si mesmo, ele se faz no mundo. Para o homem é sempre possível transcender e superar a si mesmo, na medida que o homem é aquilo que faz de si mesmo, tendo a permanente liberdade de se reinventar. À primeira vista, o peso da liberdade depositado no homem pelos filósofos existencialistas pode parecer excessivamente pessimista, fatalista, de uma solidão extrema no íntimo de nossas decisões. Mas, ao contrário, o existencialista coloca o futuro em nossas mãos, nos dá total autonomia moral, política e existencial, além da responsabilidade por nossos atos. Crescer não é tarefa das mais fáceis.


“O homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se realiza, não é portanto nada mais do que o conjunto de seus atos, nada mais do que sua vida” Sartre.

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