Comparação entre os textos “Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita” e “O que é esclarecimento?”,de Immanuel Kant. (Danilo Bantim)
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| Immanuel Kant |
Kant é um dos pensadores mais influentes da história da filosofia, tendo suas teorias servido como base para inúmeros movimentos intelectuais. Este trabalho tem por objetivo a difícil tarefa de comparar dois textos deste ilustre autor, a saber, “Idéia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita” e “O que é o esclarecimento?”. Porém, antes de começarmos a comparação proposta, é necessária uma pequena análise de ambos.
Iniciaremos a análise pelo primeiro texto citado. Neste texto, Kant se propõe a expor o que seria essa idéia de história universal, adotando para tal um ponto de vista que ele chama de cosmopolita. Esta é uma doutrina que tende a negar as divisões políticas e ver no homem um “cidadão do mundo”. Kant distingue então a comunidade civil da comunidade civil mundial, mostrando que a primeira integra a segunda, porém a segunda é maior, e da qual todos os homens são cidadãos por natureza.
Através do ponto de vista cosmopolita o filósofo é capaz de diferenciar a História que tem a sucessão de fatos como objeto de estudo, da História enquanto reflexão, caso o seu fio condutor seja realmente a razão, e que será chamada mais precisamente de “Filosofia da História”.
O homem é destacado por Kant como o único animal racional da Terra. Se o homem só agisse por instinto, como os outros animais, a história humana seria uma história planificada, como, exemplifica Kant, é a das abelhas e dos castores. Essa história planificada também ocorreria caso o homem não precisasse desenvolver as suas disposições naturais para o uso da razão, ou seja, caso agisse desde os seus primórdios como um cidadão do mundo.
Tendo em vista essa necessidade de desenvolver a razão, podemos pensar que a sociedade humana progride, sendo esse progresso o aperfeiçoamento moral da espécie, sendo inevitável e absolutamente necessário, e guiado por uma “mão invisível” no decorrer da história. No decorrer do texto e de suas proposições, Kant busca esse princípio condutor numa razão que se manifesta através, não de um único indivíduo, mas de maneira universal, isto é, da espécie humana como um todo.
Ao fim do texto, podemos perceber que a teoria kantiana identifica o “fio condutor” como sendo a própria razão, e concluir que a história universal proposta é, na verdade, a história do progresso da razão.
No segundo texto, Kant defende o estabelecimento de um domínio da razão e da liberdade. Logo no início do texto, Kant define o conceito de imaturidade que será utilizado e o de esclarecimento.
Kant estabelece o esclarecimento como sendo a única saída do homem da sua imaturidade, uma menoridade intelectual, sendo esta imaturidade a incapacidade de uma pessoa se servir de seu próprio entendimento. O esclarecimento acontece quando a pessoa tem a coragem de ser crítica, ou seja, de usar seu entendimento para procurar conhecimento, e examinar tudo aquilo que lhe é transmitido.
O homem mesmo é o culpado pela sua imaturidade, pois, por preguiça ou mesmo covardia, deixa-se ser guiado por outros homens, ao invés de utilizar o seu próprio entendimento. O autor ainda afirma que os homens preferem pagar para que outros pensem por eles. Kant ainda ironiza dizendo: “Se eu tenho um livro que pensa por mim, um pastor que age como se fosse minha consciência, um físico que prescreve a minha dieta e assim sucessivamente, não tenho então necessidade de empenhar-me por conta própria.”. Kant mostra aqui uma certa preocupação, já que, para ele, aqueles que não buscam o esclarecimento acabam se tornando gado daqueles que ele chama de “guardiães da multidão”.
Os guardiães mostram para o seu gado os perigos que podem vir a ameaçá-los, caso eles tentem “andar” por sua própria conta. Para Kant, essa intimidação é feita através de fórmulas e doutrinas, e cita alguns exemplos, como as autoridades religiosas, que convocam seus fiéis a crer sem fazer nenhum questionamento.
Kant diz que o esclarecimento só é atingido através do uso público da razão, ou seja, sua liberdade de expressão. O uso público da razão se difere do privado, e para mostrar isso, Kant se utiliza de um exemplo. Um oficial militar precisa obedecer às regras vigentes do serviço militar, fazendo assim uso privado da razão. Entretanto, caso ele discorde de alguma dessas regras, ele tem todo o direito de exercitar sua crítica, fazer uso público da razão, diante de pessoas conhecedoras do assunto em questão.
Com esta breve análise dos textos tendo sido concluída, podemos agora nos debruçar sobre a verdadeira proposta, que é de comparar os dois textos.
Para tal, podemos nos utilizar da idéia de movimento da história humana utilizada no primeiro dos textos. Sem a sua disposição necessária ao progresso, o homem teria uma história planificada, como é a dos animais. E esta mesma disposição também é mostrada logo no princípio do segundo texto nas próprias palavras de Kant: “Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade auto-imposta.”.
Em ambos os ensaios, Kant mostra a necessidade do homem de se esclarecer e de desenvolver a sua razão. No primeiro, o desenvolvimento da razão é necessário para o cumprimento do plano que a natureza reservou para a espécie humana, sendo estas disposições naturais se desenvolvendo completamente apenas na espécie humana, e não no indivíduo.
A razão é, neste momento, a força que amplia os horizontes do homem, indo muito além do mero instinto, e que, nas palavras de Kant: “não conhece nenhum limite para seus projetos.”. Através da razão é que o homem seria capaz de resolver o maior problema que a natureza o impõe, a saber, a formação de uma constituição civil perfeita. Porém, Kant evidencia uma dificuldade para isso, que é a necessidade humana de um senhor, enquanto vive junto de outros da mesma espécie. Este senhor seria aquele que obrigasse que todos os homens a obedecerem à vontade universal, tornando possível assim a liberdade de todos.
A idéia de razão exposta no segundo ensaio é a de uma razão libertadora, que faz o homem romper os grilhões da preguiça e da covardia e que o leva a pensar por si próprio, deixando de ser assim um peão no jogo dos senhores.
Isso é favorável ao cumprimento do plano oculto da natureza. Com mais indivíduos a se tornarem esclarecidos, ou seja, a desenvolverem as disposições da razão, a espécie passa a se desenvolver como um todo, seguindo o curso do plano da natureza, onde ela poderá um dia desenvolver todas as suas disposições.
Bibliografia:
KANT, Immanuel. Idéia De Uma História Universal De Um Ponto De Vista Cosmopolita, Editora Brasiliense, São Paulo. 1986.
*O que é Esclarecimento?, disponível em: http://www.espacoacademico.com.br/031/31tc_kant.htm.

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