sábado, 25 de junho de 2011

Textos de apoio 1º semestre/2011 (2º ano)

Neste espaço, pretendemos possibilitar a todos os alunos o acesso ao conteúdo dos textos de apoio fornecidos pelos estagiários do CAp. Normalmente esses textos são reproduzidos e entregues apenas aos alunos da turma cujo estagiário fará sua regência, isso significa, que as outras turmas não terão acesso a este material de apoio ainda que estejam tratando do mesmo conteúdo. Esperamos que este post seja útil para todos.


Texto: A Filosofia na Idade Média (Hélio de Abreu)
A atualidade da Idade Média
A formação das democracias modernas foi marcada pela idéia da necessidade da separação entre Igreja e Estado, sendo este concebido como o local de predomínio da razão enquanto àquela seria reservada para o domínio da fé. Assim, Fé e razão foram vistas como compartimentos estanques, incomunicáveis, e qualquer tentativa de avanço de um sobre o outro é tomada como algo nocivo, que deve ser combatido.
No entanto, é nítido que essa ruptura se deu muito mais no âmbito das estruturas formais da legislação do que de fato nas práticas políticas. Há, de forma evidente, uma contradição entre a teoria, que de maneira praticamente unânime, vê a necessidade de um Estado laico, e a as práticas, já que, como ilustrou as reportagens acima, existe a influência de valores religiosos nas decisões políticas.Fica claro, então, que essa discussão da relação entre fé e razão está longe estar resolvida, sendo uma questão extremamente atual. Portanto, uma vez que é na Idade Média que esse tema aparece e é exaustivamente trabalhado, fica patente a importância da filosofia desse período para nos auxiliar nas questões contemporâneas.

Por que a Idade é Média?
Durante o início da Idade Moderna, os pensadores, pintores, poetas e representantes variados da cultura erudita acreditavam que estavam em um período de retomada dos valores superiores vivenciado pelos gregos. Eles defendiam que viviam em um momento de renascimento do conhecimento, da razão e da verdadeira arte que, diziam, haviam desaparecidos no período anterior: a Idade das Trevas. A Idade Média seria, desta forma, um período de ruptura, de intervalo, do progresso iniciado na antiguidade clássica e retomada pelos renascentistas. Assim, é exatamente dessa conjuntura que nasce o preconceito ante a Idade Média que, no âmbito da filosofia, é visto por muitos ainda hoje como o período em que a razão ficou cerceada, limitada, pela fé.
Mas teria sido assim mesmo? Será que a prática filosófica foi, de fato, reprimida e substituída por uma reprodução intelectualizada dos dogmas cristãos? Sem aceitar de antemão esses valores já consolidados, devemos procurar entender melhor esse período da filosofia.
Advertência
Qualquer tentativa de análise geral da Idade Média precisa ter muitas reservas, já que o período se estende por aproximadamente 10 séculos, havendo profundas alterações em todos os aspectos da sociedade, tornando perigosa qualquer afirmação que procure definir o período como um todo. Desta forma, o que procuraremos fazer a seguir é indicar algumas linhas gerais da filosofia medieval, mostrando a permanência de alguns conceitos, de alguns valores, durante a passagem do tempo e, ao mesmo tempo, mostrando que os mesmos assumiram aspectos diferentes em determinados momentos.
A Filosofia Patrística
A chamada filosofia patrística (de padre, pai) é assim chamada uma vez que seus representantes são considerados “pais” da Igreja, pois eles foram responsáveis por dar uma unidade teológica à religião cristã. É difícil precisar quando começa e termina essa fase (na verdade isso é problemático em qualquer período da história!) mas, normalmente, são considerados os primeiros filósofos cristãos, Clemente de Alexandria (150-215[ainda na Idade Antiga, por sinal]) e Orígenes (184-254) e, terá como seu maior expoente, Santo Agostinho(354-430). Desde sua fundação, o cristianismo assumiu inúmeras formas, com diferentes dogmas (como o conflito sobre a natureza divina de Jesus) e livros canônicos[1]. É somente com o Concílio de Nicéia (325) que é definido a primazia do bispado de Roma sobre os demais e estabelecem-se as principais doutrinas da Igreja. Nesse contexto, a filosofia patrística foi fundamental na elaboração das teorias que, aos poucos, foram sendo consolidadas como dogmas pela Igreja. A Bíblia, apesar de ser a fonte das principais doutrinas da Igreja, não possui um caráter sistemático, sendo necessário um esforço na elaboração dos princípios teológicos que estivessem em consonância com ela.
A influência da filosofia grega para o pensamento desse período (e na filosofia medieval como um todo) é significativa, pois os pensadores cristãos se apropriaram de conceitos importantes daquela. Isso não quer dizer, contudo, que possa creditá-los como plagiadores, como se eles tivessem simplesmente “cristianizado” os gregos (como muitos os acusam). É preciso destacar que o uso dos conceitos da filosofia grega foi fruto de intenso debate no meio cristão, havendo aqueles que condenavam (como Tertuliano [155-222]) e outros que defendiam (Clemente e Orígenes, por exemplo). Não houve uma apropriação irrefletida, mas o que se deu foi uma seleção de elementos que, considerados como úteis para o cristianismo, foram adaptados para o mesmo. Nesse período a influência da filosofia platônica, principalmente através do neo-platonismo, é predominante.
A “filosofia da escola” ou Escolástica
Um fator muito importante para se compreender as mudanças que a filosofia passou dos séculos III ao X foi que, com o avanço dos povos bárbaros e o consequente enfraquecimento e queda do Império Romano, as cidades européias foram diminuindo de tamanho e importância. Assim, a filosofia, que até então se mostrara como uma prática urbana, teve que passar por inúmeras transformações para se adaptar a essa nova estrutura: ela irá se abrigar nos mosteiros. Desta forma, é somente a partir do surgimento e consolidação das ordens monásticas e da estabilidade político-econômica que a Europa alcançará na virada do milênio que a filosofia escolástica será desenvolvida. No ano de 1070, o papa Gregório VII definiu que todas as comunidades monásticas e catedrais deveriam ter uma escola que ensinariam gramática, lógica, retórica, música, geometria, aritmética e física. Essas “matérias” eram consideradas como preparatórios para o estudo da teologia e filosofia. O pensamento desenvolvido nessas escolas foi denominado Escolástica e, aos poucos, foi se tornando algo como uma filosofia oficial da Igreja. Aristóteles aparece agora como a principal referência filosófica, sendo muitas vezes denominado simplesmente como “O Filósofo”, indicando a sua importância para a época. Santo Anselmo (1033-1109), São Tomás de Aquino (1124-1274) e Guilherme de Ockham (1300-1350) são alguns dos principais nomes da Escolástica.
Entre a Fé e a Razão
De maneira geral, a sociedade medieval, e também a filosofia medieval, pode ser considerada como uma síntese da filosofia grega com religião cristã. Durante o início da era cristã e até o fim do Império Romano, ambas as visões de mundo conviveram paralelamente e, paulatinamente, foram imiscuindo-se, misturando-se, até que se encontrou uma estabilização formando o que se passou a chamar de mundo ocidental.
Como dissemos, a relação entre fé e razão foi um tema muito discutido na filosofia medieval; todavia, como questiona Danilo Marcondes[2], como se deu essa fusão uma vez que a filosofia nasceu como uma tentativa de ruptura com o pensamento mítico-religioso e o cristianismo é, assumidamente, uma religião revelada? É certo que a relação entre fé e razão se manifestou de forma variada ao longo da Idade Média e conforme as posições pessoais de cada filósofo. Alguns defendiam que a compreensão racional só é possível a partir da fé (Sto. Agostinho), outros que fé e razão são caminhos diferentes mas que levam ao mesmo destino (Sto. Tomas de Aquino) e ainda aqueles que acreditavam na superioridade da fé racional (Ockham). Um argumento usado por Sto Agostinho e que foi retomado várias vezes ao longo do período medieval é que a fé é fundamental para a vida humana, não somente no âmbito da religião porém em todos os segmentos da vida. Por exemplo: quando crianças, precisamos confiar em nossos pais para podermos sobreviver. Já adultos, temos que confiar na maioria das informações que nos são passadas, como as placas que indicam o caminho, que o alimento que ingerimos não está envenenado, etc.
É fato, porém, que a especulação filosófica era por vezes limitada pelos dogmas, ou seja, todo pensamento filosófico deveria estar em harmonia com as verdades estabelecidas pela Igreja. No entanto, na prática, isso não impediu que surgissem debates e até críticas em respeito a esses dogmas. O fato de vários pensadores terem sidos condenados e obrigados a se retratar indica exatamente isso. Devemos lembrar também, que as condenações de Galileu, o recuo de Descartes em assumir o heliocentrismo e a perseguição a Espinosa ocorreram em pleno renascimento e não no período medieval. Vale apena destacar também o fato de que inúmeros textos da antiguidade só são acessíveis hoje porque foram preservados pelos mosteiros. E que as universidades, que hoje representam o pensamento livre, que são locais onde impera as discussões racionais, tiveram origem nas abadias medievais.
Isso não quer dizer que não houve perseguições, que havia plena liberdade de pensamento e que a Igreja não buscava reprimir todas as idéias contrárias aos dogmas cristãos, porém, é preciso perceber que nem sempre ela tinha esse poder, e que havia maneiras de burlar a autoridade religiosa permitindo que a filosofia se desenvolvesse com desenvoltura e vigor.
BIBLIOGRAFIA:
FRANÇOIS. Chatelet. A Filosofia Medieval do século I ao século XV. 2° Ed. Lisboa, D. Quixote, 1974
FRANCO JR, Hilário. A Idade Média: Nascimento do Ocidente. 2ª. ed. São Paulo: Brasiliense, 2005.
MARCONDES, Danilo. Iniciação a História da Filosofia:Dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010.
[1] Do gregokanóni, “régua”, “cana”[de medir]. Os livros canônicos (ou Cânone) indicam o conjunto de livros considerados como sagrados, que têm como origem a inspiração divina. [2] -MARCONDES, Danilo. Iniciação a História da Filosofia:Dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2010. P.107

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Texto: São Tomás de Aquino (Augusto Carvalho)
Século XIII, a Igreja Católica reina soberana sobre a Europa Ocidental. Estende sua hegemonia, religiosa, filosófica, econômica e, sobretudo política, praticamente sozinha, não fossem os antigos reis do Sacro Império Romano Germânico, no leste europeu; e o enclave muçulmano de Al Andaluz, na península Ibérica.
As cidades começam a exercer atração devido à expansão do comércio de bens e excedentes agrícolas. Os “mestres da teologia” deixam o campo, e parte das bibliotecas dos mosteiros são levadas às cidades.
Neste ambiente, nasce Tomás de Aquino, nesta cidade italiana, em 1225. Inicialmente recebe uma educação Beneditina, para quem sua família o entrega como oblato – membro de família aristocrática entregue a igreja como demonstração de fé, para tornar-se doutor da igreja. A Ordem dos Beneditinos se caracterizava por uma disciplina rígida, cujo lema “Ora e Labora” (reza e trabalha) foi incorporado como preceito de vida por Tomás.
A esta época Frederico II, parente direto de Tomás, completara a maior idade. Para sagrá-lo rei da Itália a Igreja fez exigências de receber parte do então território italiano, ele concordou a princípio, mas depois de empossado não cumpriu o acordo o que levou a uma dissensão que culminou em luta armada entre os exércitos do Papa e de Frederico II. Inicialmente a família de Tomás ficou ao lado do rei, enviando seu exército para engrossar as forças deste, mas quando o Papa Gregório IX excomunga Frederico II, muda de lado e passa a lutar ao lado da Igreja.
Durante este conflito, Tomás é “seqüestrado” por seus familiares e mantido recluso, contra sua vontade, no castelo da família. É um período onde intensifica os estudos bíblicos. Após a morte de seu pai, retorna a Igreja e aprofunda seus estudos, sagrando-se bacharel em teologia e doutor em teologia. Passa a lecionar nas universidades italianas até ser chamado à Universidade de Paris para enfrentar uma nova ordem que se estabelecia: a penetração da herege filosofia árabe no pensamento europeu.
Avicena, primeiro intérprete árabe de Aristóteles, era tolerado pela Igreja por fazer uma leitura via Platão das obras aristotélicas, ou seja, admitia a existência de dois mundos: o terreno e o espiritual. Porém, Aristóteles era visto pela Igreja como perigoso, pois não havia em sua obra os conceitos de imortalidade da alma, eternidade e Deus. Com a divulgação das obras de Averróis, emerge um Aristóteles racionalista, incompatível com o dogma romano, que precisava ser combatido.
Averróis (Ibn Rushid) empreende sua obra para superar um crescente ceticismo, em Al-Andaluz, ocasionado pela divulgação da obra “Tahafut al Falasifah” (destruição da filosofia) de Al-Ghazalli, em que apenas a fé podia ser o caminho para a verdade. Para Averróis fazer filosofia é interpretar corretamente o pensamento de Aristóteles. Assim propõe um retorno, sem concessões, ao autêntico aristotelismo como única forma possível de se fazer filosofia.
Siger de Brabante, professor de artes na Universidade de Paris, se encanta com a interpretação radical das obras de Aristóteles por Averróis que afirmava a filosofia como instrumento legítimo de busca da verdade de Deus e do mundo, atributos estes, exclusividade da Igreja. Foi censurado pelo Bispo de Paris, tendo 219 teses consideradas subversivas e condenadas pela hierarquia religiosa. Expulso da universidade continuou a difundir as idéias de Averróis, constituindo um movimento intelectual conhecido por “averroísmo latino”.
Tomás de Aquino, então, debruça-se sobre a obra de Aristóteles, que neste momento já havia sido integralmente traduzida para o latim (exceto a política), e sobre a interpretação e comentários de Averróis. Nesse emaranhado de idéias, tendências e conflitos, sua posição era difícil e delicada, pois, ao optar pelo aristotelismo, rompia com a tradição platônico-agostiniana, incompatibilizando-se com os tradicionalistas e seus aliados na hierarquia eclesiástica. Ao mesmo tempo, fingia não aceitar as interpretações racionalistas de Averróis e dos averroístas latinos, que o acusavam de timidez intelectual.
Santo Tomás assumiu uma posição absolutamente original, optou por Aristóteles e seguiu a interpretação de Averróis, sem jamais abdicar da autonomia de suas próprias idéias perante a autoridade de ambos. É por isso que o sistema tomista se caracteriza pela presença das mais profundas exigências racionais e é de tal forma logicizado que a apreensão racional da fé se torna possível.
A “Suma Teológica”, obra em treze volumes (incompleta) que versa sobre metafísica, física, direito canônico, jurisprudência, leis, Estado, enfim, sobre tudo que dava contas a Igreja naquele momento, passa a ser a base filosófica da Igreja. Nela Tomás de Aquino coloca o homem como centro e objeto de toda criação e define o cosmos em termos de sensação humana.
O fundamento ontológico do mundo é Deus, que cria o mundo a partir de sua Vontade. Não há matéria subjacente, a criação é uma manifestação da Vontade de Deus, logo, o mundo é contingente. Não tem necessidade de existir, mas se mantém pela Graça de Deus, que é a própria realidade do mundo.
“É bem provável que aquele que ouve pronunciar a palavra “Deus” não compreenda que com ela se queira significar o ser acima do qual não se pode pensar nada maior, pois muitos acreditaram que Deus tivesse corpo. Mesmo que alguém saiba que a palavra “Deus” significa o ser acima do qual não se pode pensar nada maior, nem por isso se segue que o que se designa por esse nome seja inteligido com seu real sentido, além da simples apreensão pelo entendimento. Nem se pode argumentar que existe realmente, a não ser que já se admitisse a existência real de algo acima do qual não se pode pensar nada maior, o que não é aceito por aqueles que negam que Deus existe.” (SE A EXISTENCIA DE DEUS É UMA VERDADE EVIDENTE EM SI MESMA, Summa Theológica, I, q2, a1 (Apud: COSTA, José Silveira da, 1936 – Tomás de Aquino: A razão a serviço da fé, São Paulo: Moderna, 2001, pp.112)
Para Santo Tomás a razão pode provar a existência de Deus, através de cinco vias, todas de índole realista: considera-se algum aspecto da realidade dada pelos sentidos como o efeito do qual se procura a causa.
A primeira fundamenta-se na constatação de que existe movimento no universo. Todo movimento tem uma causa, que deve ser exterior ao próprio ser que está em movimento, pois não se pode admitir que uma mesma coisa possa ser ela mesma a coisa movida e o princípio motor que a faz movimentar-se. Logo é preciso ter havido um primeiro motor imóvel que desse origem ao movimento.
A segunda via diz respeito a idéia de causa em geral. Todas as coisas ou são causas, ou são efeitos, não se podendo conceber que alguma coisa seja causa de si mesma, então, impõe-se admitir uma primeira causa não causada.
A terceira via refere-se aos conceitos de necessidade e possibilidade. Todos os seres estão em permanente transformação, alguns sendo gerados, outros deixando de existir. Mas poder ou não existir não é possuir uma existência necessária e sim contingente, já que aquilo que é necessário não precisa de causa para existir. Assim o possível não teria em si razão suficiente de existência e se nas coisas houvesse apenas o possível não haveria nada. Para que o possível exista é necessário que algo o faça existir.
A quarta via é de índole platônica e baseia-se nos graus de hierarquia de perfeição observados nas coisas. Há graus na bondade, na verdade, na nobreza e nas outras perfeições desse gênero. O mais e o menos, implicados na noção de grau pressupõem um termo de comparação que seja absoluto. Deverá existir, portanto, uma verdade e um bem em si.
A quinta via fundamenta-se na ordem das coisas. Todas as operações dos corpos tendem a um fim, mesmo quando desprovidos de consciência disso. A regularidade com que alcançam seu fim mostraria que eles não são movidos pelo acaso: a regularidade seria intencional e desejada. Uma vez que aqueles corpos estão privados do conhecimento, pode-se concluir que há uma inteligência primeira, ordenadora da finalidade das coisas.
Para ele o fim do homem é o aperfeiçoamento de sua natureza, o que somente pode cumprir-se em Deus. A finalidade última das ações humanas transcenderia ao próprio homem, cuja vontade, mesmo que ele não o saiba, leva-o a dirigir-se ao ser supremo.
Para que possa ser considerada boa, a vontade deve conformar-se a norma moral que se encontra nos homens como reflexo da lei eterna da vontade divina. Esta, no entanto, não pode ser conhecida pelo homem, de tal forma que ele deve limitar-se a obedecer aos ditames da lei natural, entendida como lei da consciência humana.
Em política, Santo Tomás distingue três tipos de lei, que dirigem a comunidade ao bem comum. O primeiro é constituído pela lei natural (conservação da vida, geração e educação dos filhos, desejo da verdade); o segundo inclui as leis humanas ou positivas, estabelecidas pelo homem com base na lei natural e dirigida a utilidade comum; finalmente, a lei divina guiaria o homem à consecução de seu fim sobrenatural, enquanto alma imortal.
Quanto ao problema das relações entre o poder temporal e o poder espiritual, as idéias de Santo Tomás revelam a procura de equilíbrio entre as tendências conflitantes da época. O Estado (poder temporal) é concebido como instituição natural, cuja finalidade, consistiria em promover e assegurar o bem comum.
Por outro lado, a Igreja seria uma instituição dotada fundamentalmente de fins sobrenaturais. Assim o Estado não precisaria se subordinar a Igreja, como se ela fosse um estado superior. A subordinação do Estado à Igreja deveria limitar-se aos vínculos de subordinação existentes entre a ordem natural e a ordem sobrenatural, na medida em que esta aperfeiçoaria a primeira.
A harmonização no plano social e político, entre poder temporal e poder espiritual seria, portanto, análoga à que Santo Tomás procura estabelecer entre filosofia e teologia, entre razão e fé.
Tomás de Aquino morre em 1274 e é canonizado pelo Papa João XXII em 1323.
BIBLIOGRAFIA
1) FRAGA Bandeira de Melo, Homero; São Tomás de Aquino – Doutor Angélico; I Seminário de Filosofia Medieval – UERJ; 2010; Rio de Janeiro, RJ.
2) SANTO TOMÁS DE AQUINO; Vida e Obra; consultoria Carlos Lopes de Mattos; São Paulo, SP; Abril Cultural, 1979, (Coleção Os Pensadores).
3) AERSTEN, Jan A.; Tomás de Aquino; p. 249 a 268; Filósofos da Idade Média; organizador: Theo Kobusch; tradutor: Paulo Astor Soethe; São Leopoldo, RS; Unisinos; 1999; (Coleção História da Filosofia).
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Texto: Santo Agostinho (Augusto Carvalho)
Responsável pela transição do pensamento filosófico antigo para o medieval. Profundo conhecedor da filosofia grega. Criou uma base teórico-filosófica cristã, transformando as idéias platônicas em verdades divinas. Foi influenciado pelo neoplatonismo de Plotino – vertente filosófica que tornara-se religião “underground” que fundia as idéias platônicas com doutrinas escolásticas e princípios dogmáticos pitagóricos, vivia na clandestinidade, assim como o cristianismo, na Roma do início da era cristã, desapareceu (ou foi assimilada) após a consagração do cristianismo como religião romana oficial.
Nasceu em Tagaste, Numíbia em 354 dC, filho de pai pagão, Patrício, e mãe cristã, (Santa) Mônica, se converteu ao cristianismo apenas aos 33 anos de idade. A partir de então, defendeu-o como forma de superar a barbárie e os “espetáculos da imundície”, influenciados segundo ele, pela prática de rituais em homenagem a deuses pagãos. Sua obra mais famosa são as Confissões (399), em treze livros, como o próprio nome já diz, trata-se de uma releitura de sua própria vida à luz da sua conversão. A “Trindade” (399-419), em quinze livros, é sua obra mais significativa. Pela “Tratados sobre a Graça”, que trata das controvérsias contra as heresias, recebeu da Igreja o título de Doutor da Graça. A perspectiva da fé pela razão é mais desenvolvida na gigantesca obra “A Cidade de Deus” (416-427), em vinte e dois livros; “A busca central não era a cidadania na sociedade dos homens, mas a salvação no reino de Deus.”
Antes em, 388, escreveu “Livre arbítrio”, onde aborda a existência do mal no mundo e da responsabilidade divina sobre ele. Concluindo que Deus não nos induz ao mal, pelo contrário, nos dá liberdade de escolha entre proceder bem ou mal, assim: “o mal não é ser, mas privação de ser, como a obscuridade é a ausência de luz.”
Para Agostinho o corpo não é mal por natureza – a matéria não pode ser considerada má a priori, já que foi criada por Deus. O homem é a união de corpo e alma, que nascem juntas fundidas em uma substância humana. A alma se divide em vegetativa, sensitiva e intelectiva. Nesta última se dá a Inteligência (razão), que no homem é o amor e nos animais instinto. Influenciada pela Vontade, que é livre e não determinada pelo intelecto, pode desejar o mal.
Em “Confissões”, relata sua descoberta de Deus, e fala sobre o mal que habita os homens. Narra sua vida e sua alma “onde se revelam os prodígios da graça em uma natureza rebelde e descaída.”
Agostinho parte da certeza da própria existência espiritual para construir uma “verdade superior” e imutável, condição para qualquer verdade particular. Argumentando que da mesma forma que para a visão sensível, além do olho e da coisa, é preciso à luz física, para o conhecimento intelectual é preciso à luz espiritual provida por Deus. Assim Agostinho faz uma transposição das “idéias” de Platão para a “verdade” divina, que, da mesma forma são eternas e princípios essenciais e formais das coisas naturais. Considera a filosofia como solucionadora do problema da vida, ao qual só o cristianismo pode dar uma solução integral. Todo seu interesse central está, portanto circunscrito aos problemas de Deus e da alma, visto serem os mais importantes e os mais imediatos para a solução integral do problema da vida. A existência de deus é provada a priori, em sua presença na alma humana e, a posteriori, na mudança constante que demonstra a imperfeição das coisas no mundo fenomênico. Quanto à natureza, Deus é poder racional, eterno, imutável, simples, espírito e consciência, ser, saber e amor.
No pensamento de Santo Agostinho a política e a teologia são indissociáveis, mesmo quando se referem a questões religiosas é perceptível uma leitura de sua visão de sociedade, de homem e de Estado.
Agostinho não acredita que seja possível ao Estado chegar a uma justiça verdadeira, se não for regido pelos princípios morais do cristianismo. De modo que para ele há uma primazia da Igreja sobre o Estado. Assim, a função do Estado é uma fusão das necessidades objetivas e preocupações espirituais, para com o povo.
Ele não acreditava que as divergências religiosas fossem resolvidas apenas com discussões e debates, ele próprio foi vítima de uma emboscada, mas ensinava: ao “pastor de almas” não é permitido fugir ante os perigos que afligem o povo, nem frente às torturas e ferocidades.
Havia, naquele momento, um amplo aspecto de revolta social: camponeses, escravos e desertores incendiavam e saqueavam os grandes domínios, o império romano esfacelava-se. Roma fora invadida por Alarico. Após o saque, as recriminações pagãs redobraram, acusando a religião cristã de ser a responsável pelas infelicidades do império e, principalmente, pela queda da Cidade Eterna. Os pagãos atribuíram a invasão ao fato de os romanos terem abandonado os deuses antigos. Para refutá-las Agostinho começa a redigir A Cidade de Deus, considerada como uma “teologia da história da salvação”. Respondeu a tais acusações, argumentando que coisas piores haviam ocorrido em tempos pré-cristãos, que os deuses pagãos eram perversos - ele não negava a existência de deuses como Baco, Netuno e Júpiter, mas os considerava demônios. A busca fundamental não era a cidadania na sociedade dos homens, mas a salvação no reino de Deus. (Conceição, G.; p.6)
Assim Agostinho refuta quem defende o culto pagão como forma de obter a felicidade, seja ela temporal ou eterna; constituindo duas Cidades, dos homens e de Deus, como o caminho para sua obtenção.
Segundo ele dois amores fizeram duas cidades: o amor por si mesmo, até o desprezo por Deus, fez a “cidade terrestre”; o amor por Deus até o desprezo por si mesmo, a “cidade celeste”. Na primeira a sabedoria orgulhosa se degrada em idolatria; na segunda, ao contrário, não há outra sabedoria do homem senão na piedade que presta ao verdadeiro Deus o culto que lhe é devido, esperando-se como recompensa na sociedade dos santos, homens e anjos, que Deus seja tudo em todos.
Na obra a Cidade de Deus, Santo Agostinho faz oposição entre sensível e inteligível, alma e corpo, espírito e matéria, bem e mal e ser e não ser. Acrescenta a história à filosofia, interpretando a história da humanidade como o conflito entre a Cidade de Deus - inspirada no amor a Deus e nos valores que Cristo pregou - presentes na Igreja, e a Cidade humana, baseada nos valores imediatos e mundanos. Essas cidades estão presentes na alma humana, e no final a Cidade de Deus triunfará; nesse momento a Cidade de Deus será separada para sempre da Cidade Satânica.
Estabelece a busca do amor como fundamento da ordem social, afinal o homem que tem amor a Deus há de tê-lo também aos seus semelhantes. A ordem social não é senão um prolongamento da ordem moral fundamental, isto é, da reta ordem do amor. A vida feliz é inseparável do social: a vida moral e a felicidade pressupõem uma vida em comunidade. Toda sociedade, boa ou má, visa a paz. Há, pois, uma paz justa ou boa, e uma paz falsa, uma paz do justo, e uma paz do injusto. A condição da paz justa é a reta ordem. A ordem é a disposição que atribui a todas as coisas o seu lugar que lhes corresponde. A preservação desta ordem da paz na sociedade depende da obediência a duas normas fundamentais: “não fazer o mal a ninguém” e “socorrer todos os que padecem necessidades”. Entretanto, Santo Agostinho reconhece que não há Estado algum que, de fato, se deixe reger pelo amor de Deus e argumenta que em todos os Estados podemos distinguir uma dupla comunidade: o “Estado de Deus” e o “Estado do Demônio”, que são dois amores em uma alma. Esse dois conceitos têm em Santo Agostinho um significado vasto; o que ele pensa não são duas instituições distintas e visíveis, tais como o Estado mundano e a Igreja, mas duas comunidades inspiradas em atitudes mentais e morais divergentes, em “partidos” divergentes.
A principal característica da moral agostiniana é o voluntarismo, ou seja, a iniciativa da ação, do prático. A virtude essencial é o amor de Deus; as outras virtudes são especificações deste amor. Agostinho identifica dois tipos de pessoas, que se identificam com os dois tipos de amor: o amor santo e o amor egoísta. Um se preocupa com o bem comum em favor do entendimento mútuo e da fraternidade espiritual, o outro procura submeter o bem comum ao próprio bem, satisfazendo a arrogância e a ânsia de domínio; um é submisso a Deus, enquanto o outro trabalha para igualar-se a Deus. Enquanto um trabalha pela paz, o outro é insubordinado; um prefere a verdade às honras humanas, o outro anseia pelos louvores, ainda que sejam falsos; um é amigo, o outro é invejoso; um deseja para o próximo o mesmo que deseja para si, o outro deseja submeter o próximo a si mesmo; um ajuda os demais interessado neles, o outro se interessa por si mesmo.
Santo Agostinho trata dos mais variados e complexos assuntos que sempre apaixonaram o espírito humano: da origem e substancialidade do bem e do mal, do pecado da culpa e da morte, do direito, da lei e das penas, do tempo e do espaço, da contingência e da necessidade, da Providência, da ação humana e do destino no desenvolvimento da história: do ser, do conhecer e do agir do homem, de Deus, da natureza e do espírito, da temporalidade, do eterno, da perenidade e dos ciclos cósmicos, da profecia e do mistério, da pessoa, da cidade e da sociedade humana.
Quando foi sagrado bispo de Hipona, Santo Agostinho, não pensava exclusivamente nas “questões espirituais”; voltava-se para as “questões temporais” relativas à política. De forma que ele estava bem familiarizado com todos os problemas de caráter administrativo, agrícola, comercial, industrial, etc. Ele conhecia a fundo a legislação civil e criminal do Império, estava atualizado sobre o complicado labirinto dos processos, da jurisprudência e das questões forenses.
“Montado no lombo dum cavalo, jumento, ou camelo perlustra Agostinho, semanas a fio, todas as latitudes de longitudes da extensa zona confiada a seus cuidados administrativos. Inspeciona campos, vinhedos, olivais, herdades, moinhos, lagares. Interessa-se por animais de raça, qualidade de cereais, frutas de mesa, uvas para vinho de mesa e de exportação. Estuda os preços das diversas mercadorias – a África era, nesse tempo, o celeiro da Europa – fiscaliza o movimento dos centros industriais e dos postos aduaneiros, estuda e aprova plantas de edifícios públicos, dá parecer sobre remodelação de cidades, traçado de estradas de rodagem. Familiariza-se com as diversas formas legais de contratos, compras, vendas, doações. Dispõe sobre o arrendamento de terras de lavouras. Entra em contato com o homem do povo, com o mundo operário, com o pequeno produtor, com as famílias, com todas as classes sociais. Procura levantar o nível cultural, fazendo abrir estabelecimentos de ensino, nomeia professores, designa matérias de ensino, preside a exames finais” (CONCEIÇÂO; p.12; citando RHODEN, H. s/d, p. 186).
BIBLIOGRAFIA
1) CONCEIÇÃO, Gilmar Henrique da; SANTO AGOSTINHO E A POLÍTICA – elementos introdutórios; http://www.unioeste.br/cursos/cascavel/pedagogia/eventos/2007/SANTO_AGOSTINHO; (14:00 hs; 09.2010, 16)
2) SANTO AGOSTINHO. A Cidade de Deus (Contra os Pagãos) Petrópolis: Editora VOZES (Coleção Pensamento Humano).
3) SANTO AGOSTINHO. De Magistro. São Paulo: Abril Cultural, 1973, (Coleção Os Pensadores).
4) SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Abril Cultural, 1973, (Coleção Os Pensadores).
5) www.wikipedia.org/wiki/Agostinho_de_Hipona; (16:00 hs; 09.2010, 14)
6) Sítio Filosófico: Página da Beatrix; www.beatrix.pro.br/educação/agostinho - Fontes:
*1- www.mundodosfilósofos.com.br/Agostinho;
*2- Ordem de Santo Agostinho (OSA) : site de Sandra Elisa;
*3- ABBAGNANO, Nicola; dicionário de filosofia; Martins Fontes; SP; 2000;
*4- ARANHA, Maria Lucia A.; Filosofia da Educação; Moderna; SP; 1996;
*5- CHAUÍ, Marilena; Convite a filosofia; Ática, SP; 1995;
*6- MARCONDES, Danilo; Iniciação à história da filosofia; Jorge Zahar. RJ; 1997;
*7- ROSA, Maria da Gloria; A história da educação; Cultrix; SP; 1999
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Texto: Santo Agostinho: O idealizador da revelação divina (Raphaela Bastos)
O Inicio da era cristã
Santo Agostinho, do qual trataremos logo a seguir, presenciou a decadência do Império Romano do Ocidente. No ano de 312, pouco mais de quatro décadas antes de seu nascimento, o imperador Constantino havia oficializado o cristianismo em toda a região sob seu domínio – que sofria ataques contínuos dos povos bárbaros. A queda do Império Romano só veio a acontecer 36 anos depois da morte de Agostinho. Os quase mil anos seguintes foram englobados pelos historiadores no período da Idade Média, que tem entre suas características principais o domínio da igreja católica sobre quase todas as atividades humanas.
A filosofia Agostiniana dominou a primeira fase da Idade Média, marcada por guerras constantes, decadência das cidades, pulverização do poder político e internacionalização da cultura por meio da igreja. Foi uma época em que a educação era eminentemente religiosa e a ciência avançava pouco.
A Idade Patrística (100-1054)
Durante certo tempo, no final da Idade Antiga e início da Idade Média baixa, a Igreja oferecia uma certa resistência ao ensino e propagação da filosofia grega por achá-la herética. Porém, com a difusão das obras de Platão e Aristóteles, não foi mais possível ignorar a herança intelectual grega. Neste sentido, a filosofia medieval ficou dividida entre as verdades profanas, constituídas pela doutrina de Aristóteles, e as verdades cristãs, contidas nas sagradas escrituras e nas interpretações autorizadas dos textos sacros. Foi neste contexto que surgiu a Patrística.
A Patrística é a filosofia dos padres da igreja católica, que tinham o objetivo de unir religião e filosofia, introduzindo novas ideias para a sociedade medieval, tais como: criação do mundo e livre-arbítrio. Essa filosofia é uma retomada da filosofia platônica na qual é valorizado o supra-sensível, e a qual remete o homem a um comportamento ético rigoroso, já que o mundo corpóreo ou sensível afasta o homem do supremo bem. Com isso, é indispensável que o homem paute seu comportamento na justa medida, ou seja, mantenha sob controle as suas paixões de forma racional.
A filosofia agostiniana, considerada a mais influente deste período, Deus é o Sol que nos ilumina. Através da doutrina da iluminação divina, Agostinho explica como é possível ao homem receber de Deus as verdades eternas, pois todo conhecimento verdadeiro é resultado de uma iluminação divina, que faz com que o homem contemple as ideias. Como na alegoria da caverna, de Platão. Agostinho encontra na filosofia a felicidade passando a utilizá-la como instrumento em favor da fé, de onde tira a máxima: “Entender para crer e crer para entender.”
Santo Agostinho
Aurélio Agostinho, o Santo Agostinho de Hipona foi um importante bispo cristão e teólogo. Embora tenha vivido nos últimos anos da Idade Antiga – que se encerrou com a queda do Império Romano, no ano de 476 -, Santo Agostinho (354-430) foi o mais influente pensador ocidental dos primeiros séculos da Idade Média (476-1453). Sendo filho de mãe cristã e de pai pagão. Sua formação teve importante influência do maniqueísmo (sistema religioso que une elementos cristãos e pagãos).
Agostinho completou seus estudos clássicos e tornou-se professor de retórica, lecionando primeiro em Cartago, depois em Roma e finalmente em Milão. O encontro com o Bispo Ambrósio, foi determinante para sua decisão de abandonar o maniqueísmo ( Filosofia dualística que divide o mundo entre bem, ou Deus, e mal, ou o Diabo. Com a popularização do termo, maniqueista passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos dois princípios opostos do bem e do mal.), do qual foi adepto durante nove anos. A conversão ao catolicismo chegou lentamente por meio de sucessivas conquistas intelectuais.
Moral
Evidentemente, a moral agostiniana é teísta e cristã e, logo, transcendente e ascética. A pessoa deve não apenas crer em Deus, mas se entregar a práticas espirituais, levando vida contemplativa com mortificação dos sentidos. A concepção que Agostinho tem do mal, está baseada na teoria platônica, assim o mal não é um ser, mas sim a ausência, na limitação de um outro ser, o bem (assim como a escuridão não tem uma realidade substancial, mas existe somente por via negativa como ausência de luz.). O mal é aquilo que "sobraria" quando não existe mais a presença do bem. Deus seria a completa personificação deste bem, portanto não poderia ter criado o mal.
Agostinho tenta argumentar que a origem do mal está no livre-arbítrio concedido por Deus. Deus em sua perfeição quis criar um ser que pudesse ser autônomo e assim escolher o bem de forma voluntária. O homem, então, é o único ser que possuiria as faculdades da vontade, da liberdade e do conhecimento. Desta forma ele é capaz de entender os sentidos existentes em si mesmo e na natureza. Entretanto a vontade é livre, e pode querer o mal, podendo agir desordenadamente, imoralmente, contra a vontade de Deus.
A única forma de mal existente em todo o universo, é a maldade humana que se exprime no pecado – o que significa um distanciamento da vontade humana em relação à lei de Deus. O homem é um ser capacitado a escolher entre algo bom (proveniente da vontade de Deus) e algo mau (a prevalência da vontade das paixões humanas). Mas a tendência ao pecado não é eventual, mas essencial no homem, exprimindo sua natureza, degenerada, culpada, necessitada que pode ser salva com a ajuda de Deus. Assim se chega às verdades eternas, e o intelecto então é capaz de pensar corretamente a ordem natural divina. A unidade divina é plena e viva, e guarda a multiplicidade. O amor de Deus é infinito. A graça e a liberdade complementam-se.
A Política
O pensamento político de Santo Agostinho marcou profundamente a Idade Média Cristã. As causas que levaram o Império Romano à ruína como a ganância, a soberba, os vícios, em resumo, o amor concupiscente, são retratados por santo Agostinho e ele conclui que é impossível que governantes e governados construírem uma sociedade justa e tranquila.
A concórdia social só será obtida quando o Estado se abrir para os valores religiosos, prestando culto ao Deus Verdadeiro. O cristianismo contem em si uma riqueza extraordinária capaz de transformar a política no exercício da caridade. No entanto, Agostinho não esconde que o estado, embora tenha uma papel importante para a sociedade ele é relativo. A atividade política é notável, porém não é absoluta. Ela pode quando bem exercida tornar a vida dos cidadãos da pátria celeste confortável e serena. Porém, de forma parcial, pois seu campo de atuação se esgota nos estreitos limites da cidade terrena. O destino final dos governantes e dos seus súditos que aderiram aos preceitos de Cristo é o gozo da paz duradoura e perfeita. Esta já desfrutam os cidadãos da pátria celeste.
Em A Cidade de Deus, existiram duas cidades principais: a Cidade Terrena (representada por Roma) e a Cidade de Deus (representada pela Igreja). Embora as obras de arte terrenas de Roma pudessem cair, a obra de salvação iniciada por Jesus Cristo e levada adiante por todos os fiéis da igreja cristã havia erguido uma Cidade de Deus tão forte que nada poderia triunfar contra ela. Há dois tipos de homens, os que se amam a si mesmos até ao desprezo de Deus (estes são a cidade terrena) e os que amam a Deus até ao desprezo de si mesmos (estes são a cidade de Deus).

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Texto: A Filosofia Patrística (Danilo Bantim)

A Patrística
Com o nome de patrística entende-se o período do pensamento cristão que se seguiu à época neotestamentária, e chega até ao começo da Escolástica: isto é, os séculos II-VIII. Este período da cultura cristã é designado com o nome de Patrística, porquanto representa o pensamento dos Padres da Igreja, que são os construtores da teologia católica, guias, mestres da doutrina cristã.
A Patrística se desenvolveu num ambiente altamente influenciado pela filosofia grega e dela se valeu para esclarecer e defender o novo conteúdo da fé. O Neoplatonismo, contemporâneo da Patrística, teve grande ascendência sobre os primeiros escritores cristãos. Encontramos, nessa época, duas tendências opostas: de um lado, os padres da Igreja oriental ou grega, que pretenderam harmonizar o pensamento grego com a religião cristã; de outro, os padres da Igreja ocidental ou latina, que combateram a cultura pagã.
A filosofia foi utilizada para defender a religião cristã dos ataques dos seus adversários pagãos e gnósticos, e para prestar ajuda na justificação dos dogmas (pontos fundamentais e indiscutíveis de uma doutrina religiosa).
As grandes discussões sobre os dogmas e a refutação das heresias foram, pouco a pouco, desenvolvendo a filosofia cristã e deram aos seus defensores a estatura de filósofos à altura dos seus antecessores na antiguidade clássica.
Dada a culminante grandeza de Santo Agostinho, considerado o maior filósofo do período, a Patrística será dividida em três períodos: antes de Agostinho, período em que, filosoficamente, interessam especialmente os chamados apologistas e os padres alexandrinos; Agostinho, que merece um desenvolvimento à parte, por ser o maior dos Padres, e depois de Agostinho vem o período que, logo após a sistematização, representa a decadência da Patrística.
Santo Agostinho
Santo Agostinho foi despertado para a filosofia pela leitura de Cícero. Mais tarde, foi influenciado pelo maniqueísmo, uma seita persa que acreditava que o universo era dominado por duas forças opostas que mantinham uma luta incessante entre si, o bem e o mal. Posteriormente, Agostinho se sentiu insatisfeito com o maniqueísmo, e entrou em contato com o neoplatonismo, que nesta época, tinha como principal característica o ceticismo. Cresceu em Agostinho, então, uma crise existencial, uma busca desesperada por um sentido para a vida. Foi nessa época que ele se sentiu atraído pelas pregações de Santo Ambrósio, convertendo-se pouco depois ao cristianismo.
Os passos dessa trajetória são refletidos, em grande parte, no pensamento agostiniano. Da seita maniqueísta, Agostinho herdou o dualismo, representado pela luta entre bem e mal, alma e corpo. Assim, Agostinho afirmava que os homens têm uma pré-disposição ao mal. Somente um esforço consciente poderia superar esta deficiência humana. Defendia uma rigorosa educação religiosa, já que considerava o mal como sendo o afastamento de Deus.
Do ceticismo foi herdada uma desconfiança permanente do conhecimento sensorial, conhecimento q nos apresenta uma quantidade enorme de seres mutáveis e transitórios. Do neoplatonismo foi assimilado a concepção de que a verdade deveria ser buscada no mundo das ideias.
Utilizando-se do cristianismo, defendeu o auto-conhecimento como instrumento para se buscar a verdade. Apenas o íntimo da alma, iluminada por Deus, seria capaz de atingir a verdade das coisas. Assim, todo o conhecimento verdadeiro é um resultado dessa iluminação divina que permite ao ser humano contemplar as idéias. Nesse tipo de conhecimento, a luz divina apenas ilumina as idéias, não sendo vista pelo homem. Um outro tipo de conhecimento seria aquele no qual o homem contempla diretamente a luz divina, uma experiência mística. A fé revelaria o conhecimento, vindo depois a razão para explicar aquilo que já havia sido revelado.

Política em Agostinho
Na visão de Santo Agostinho, a atividade política é algo fundamental para que haja na sociedade a tranqüilidade e a ordem. Através do exercício correto do poder, os governantes poderão prestar a todos um excelente serviço voltado para o bem comum. Contudo, a função política para Santo Agostinho não deve se limitar a resolver apenas problemas de cunho material. Como o ser humano é um todo, ela deve se esforçar para proporcionar aos cidadãos da pátria terrena condições para a prática do culto ao Deus verdadeiro. Do contrário nunca atingirá com autenticidade a concórdia social. Onde Deus não está presente a paz temporal torna-se impossível. Veremos também que a ética agostiniana se fundamenta no amor de Deus. Ela encontra sua verdadeira razão de ser, na prática do preceito evangélico “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Assim, para Agostinho há dois tipos de homens: os que se amam a si mesmos a ponto de desprezar Deus (estes são os homens da Cidade Terrestre); e os que amam a Deus a ponto de desprezarem a si mesmos (estes são a Cidade Celeste).
O pensamento Agostiniano acerca da política está permeado e fundamentado na transcendência do ser humano. Ele se articula com a Teologia sobre a qual deposita suas esperanças, pois a política, como função especificada da Cidade Terrestre, é importante enquanto atividade que promove a paz temporal e ao mesmo tempo prepara ou remete para a Cidade Celeste. O exercício do poder político em Agostinho desempenha um papel importante na sociedade terrestre como meio que garante o bem comum e a segurança dos cidadãos da Civitas Terrestre. Estes cidadãos devem trabalhar para viver numa tranquillitas ordinis. Evidentemente que esta tranqüilidade da ordem à qual se refere Santo Agostinho, só será uma realidade quando o exercício da função política for fundado no verdadeiro Amor. Sendo, porém, uma instituição exercida por homens marcados pelo pecado, a política para ser vivida com autenticidade e justiça, necessita da graça de Cristo. Santo Agostinho enfatiza que só haverá convivência justa nas organizações sociais quando Cristo for o alicerce e o centro, inspirando e ao mesmo tempo dirigindo as ações humanas.
Santo Agostinho em nenhum momento deixa de lembrar a soberania que Deus tem sobre o mundo e o homem. Quando este último reconhece e passa viver sob o Senhorio do seu Criador, as iniciativas humanas, dentre estas a política, atingirão seu fim nesta Cidade Terrestre e contribuirão para a felicidade dos cidadãos aqui e agora, preparando-os para a felicidade completa na Cidade Celeste. Para ele, a política constitui uma atividade fundamental para que no seio da sociedade humana haja o bem e a paz. A função política só será corretamente vivenciada se for pautada pelo interesse dos governantes em servir e prestar culto ao verdadeiro Deus; caso contrário, estará fadada ao fracasso.
Parece oportuno mencionar e citar as palavras que Agostinho dirigiu ao governador da Calama, Nectário. Elas resumem tudo quanto Santo Agostinho diz sobre a arte de governar a Cidade Terrestre:
“Também serviços prestados à pátria terrena, se fizeres com amor vero e religioso ganharás a pátria celeste [...] deste modo, proverás, de verdade, ao bem de teus concidadãos a fim de fazê-los usufruir não da falsidade dos prazeres temporais, nem da funestíssima impunidade da culpa, mas da graça da felicidade eterna. Suprimam-se todos os ídolos e todas as loucuras, convertam-se as pessoas ao culto do verdadeiro Deus e a pios e castos costumes, e então verás a tua pátria florir não segundo a falsa opinião dos estultos, mas segundo a verdade professada pelos sábios, quando esta pátria, em que nasceste para a vida mortal, será uma porção daquela pátria para a qual se nasce não com o corpo, mas pela fé, onde [...], após o inverno cheio de sofrimentos desta vida, florescerão na eternidade que não conhece ocaso [...] pois, o amor mais ordenado e mais útil pelos cidadãos consiste em levá-los ao culto do Sumo Deus e à religião. Este é o amor verdadeiro da pátria terrestre, que te fará merecer a pátria celeste.”

A Ética em Santo Agostinho
A obra O livre-arbítrio é escrita em forma de diálogo entre Agostinho e seu amigo Evódio, e trata sobre a vontade livre do homem e a origem do mal. A principal afirmação de Agostinho é que o livre-arbítrio é um bem concedido por Deus. Para Agostinho esse livre-arbítrio não apenas provém de Deus, mas também era necessário que Deus o tivesse concedido ao homem: “[...] era necessário que Deus desse ao homem essa vontade livre”.
Porém, diante da afirmação de Agostinho de que o livre-arbítrio é um bem dado por Deus, Evódio levanta um problema ao afirmar que é por tal liberdade que o homem peca: “O quanto me parece ter compreendido no livro anterior, é que nós só possuímos o livre-arbítrio da vontade, mas acontece ainda que é unicamente por ele que pecamos”.
Essa afirmação de Evódio envolve várias implicações. Agostinho acredita que o livre-arbítrio é um bem e, sendo assim, só pode provir de Deus, pois este é a fonte de todo o bem. Porém, se é por esta liberdade de juízo que o homem peca e, sendo o pecado um mal, seriam gerados dois problemas fundamentais: o primeiro, se realmente o livre-arbítrio é um bem; o segundo, se é por ter a capacidade de livre arbitrariedade que o homem peca, como pode essa capacidade ter sido dada por Deus, que é fonte exclusiva de todo o bem? Sobre o primeiro problema, Agostinho começa afirmando:
“Ora, essas duas verdades: que Deus existe e que todos os bens vêm dele, nós já admitimos com fé inabalável. Entretanto, nós a expusemos de tal forma que a terceira verdade também se torna plenamente evidente, a saber: que a vontade livre deve ser contada entre os bens recebidos de Deus”.
O livre-arbítrio consiste, enquanto um bem, em poder aderir livremente à boa vontade (calcada na razão), em detrimento da má vontade (ligada aos instintos):
“Portanto, penso que agora já vês: depende de nossa vontade gozarmos ou sermos privados de tão grande e verdadeiro bem. Com efeito, haveria alguma coisa que dependa mais de nossa vontade do que a própria vontade? Ora, quem quer que seja que tenha esta boa vontade, possui certamente um tesouro bem mais preferível do que os reinos da terra e todos os prazeres do corpo. E ao contrário, a quem não a possui, falta-lhe, sem dúvida, algo que ultrapassa em excelência todos os bens que escapam a nosso poder. Bens esses que, se escapam a nosso poder, ela, a vontade sozinha, traria por si mesma. Por certo, um homem não se considerará muito infeliz se vier a perder sua boa reputação, riquezas consideráveis ou bens corporais de toda espécie? Mas não o julgarás, antes, muito mais infeliz, caso tendo em abundância todos esses bens, venha ele a se apegar demasiadamente a tudo isso, coisas essas que podem ser perdidas bem facilmente e que não são conquistadas quando se quer? Ao passo que, sendo privado da boa vontade – bem incomparavelmente superior –, para reaver tão grande bem, a única exigência é que o queira”.
O homem pode, e sempre pôde, querer e realizar o bem; o querer e o fazer dependem única e exclusivamente da vontade. Portanto, o livre-arbítrio é um bem porque por ele o homem tem a capacidade de tornar seu espírito mais pleno e próximo de Deus livremente. No entanto, mesmo sendo o livre-arbítrio um bem dado por Deus, é por ele que o homem tem a possibilidade de pecar. Agostinho afirma que o pecado está na errada utilização da vontade livre. Nesse sentido, o filósofo diz:
“Pois, se é verdade que o homem em si seja certo bem, e que não poderia agir bem, a não ser querendo, seria preciso que gozasse de vontade livre, sem a qual não poderia proceder dessa maneira. Com efeito, não é pelo fato de uma pessoa poder se servir da vontade também para pecar, que é preciso supor que Deus no-la tenha concedido nessa intenção. Há, pois, uma razão suficiente para ter sido dada, já que sem ela o homem não poderia viver retamente. Ora, que ela tenha sido concedida para esse fim pode-se compreender logo, pela única consideração que se alguém se servir dela para pecar, recairão sobre ele os castigos da parte de Deus. Ora, seria isso uma injustiça, se a vontade livre fosse dada não somente para se viver retamente, mas igualmente para se pecar. Na verdade, como poderia ser castigado, com justiça, aquele que se servisse de sua vontade para o fim mesmo para o qual ela lhe fora dada? Assim, quando Deus castiga o pecador, o que te parece que ele diz senão estas palavras: ‘Eu te castigo porque não usaste de tua vontade livre para aquilo a que eu a concedi a ti’? Isto é, para agires com retidão. Por outro lado, se o homem carecesse do livre-arbítrio da vontade, como poderia existir esse bem, que consiste em manifestar a justiça, condenando os pecados e premiando as boas ações? Visto que a conduta desse homem não seria pecado nem boa ação, caso não fosse voluntária. Igualmente o castigo, como a recompensa, seria injusto, se o homem não fosse dotado de vontade livre”.
O homem tem duas grandes escolhas centrais: fazer ou não fazer o bem. Quando o homem escolhe não fazer o bem, peca. Mas, ainda que isso possa acontecer em nada diminui que o livre-arbítrio é um bem. Santo Agostinho exemplifica: “Com efeito, vês que grande privação é para o corpo não ter as mãos, e, contudo acontece que há quem use mal das próprias mãos. Realizam com elas ações cruéis e vergonhosas”.
Em outras palavras, a mão é um bem, mas também pode ser utilizada para o mal. No entanto, o fato do homem utilizá-la de forma errônea não neutraliza nem contradiz o fato dela ser um bem, pois, na sua ausência, o homem é prejudicado, porque perde parte da sua agilidade e autonomia natural.
Semelhante é com o livre-arbítrio, no pensamento de Agostinho. Por mais que o homem utilize erroneamente a vontade livre, ela continua sendo um bem. Pela sua bondade, Deus concedeu esse dom ao homem, pelo qual ele não é escravo das ‘vontades’ divinas, mas, é livre para optar pelo bem. O bem não é imposto por Deus. O bem é possibilitado por Deus.
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Texto: A Ética e a Política em Aristóteles (Hélio de Abreu)

1 - (UFF 2011)Durante a maior parte da história da humanidade, o bem-estar e o interesse dos governantes têm predominado sobre o bem-estar e o interesse dos governados. Os gregos foram os primeiros a experimentar a democracia, isto é, regime político em que os cidadãos são livres e o governo é exercido pela coletividade para atender ao bem-estar e ao interesse de todos, e não só de alguns.
Aristóteles refletiu sobre essa experiência e concluiu que a finalidade da atividade política é
(A) evitar a injustiça e permitir aos cidadãos serem virtuosos e felizes.
(B) impor a todos um pensamento único para evitar a divisão da sociedade.
(C) preparar os cidadãos como bons combatentes para conquistarem outros povos.
(D) habituar os seres humanos a obedecer.
(E) agradar aos deuses.
ÉTICA A NICÔMACO
Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer; e por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem. Mas observa-se entre os fins uma certa diferença: alguns são atividades, outros são produtos distintos das atividades que os produzem. Onde existem fins distintos das ações, são eles por natureza mais excelentes do que estas.”
Aristóteles faz distinção entre as ações que têm um fim em si mesma e aquelas que visam uma outra coisa. Para o filósofo, as primeiras são superiores as últimas.
O bem não é, como em Platão, uma Idéia superior e universal mas é definido como “aquilo a que todas as coisas tendem.”
“Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no interesse desse fim; e se é verdade que nem toda coisa desejamos com vistas em outra (porque, então, o processo se repetiria ao infinito, e inútil e vão seria o nosso desejar), evidentemente tal fim será o bem, ou antes, o sumo bem.”
De todos os bens, o maior (o Sumo Bem) é aquele que é tido em vista em todas as nossas ações.
“[...]chamamos de absoluto e incondicional aquilo que é sempre desejável em si mesmo e nunca no interesse de outra coisa. [...]Ora, esse é o conceito que proeminentemente fazemos da felicidade. É ela procurada sempre por si mesma e nunca com vistas em outra coisa, ao passo que à honra, ao prazer, à razão e a todas as virtudes nós de fato escolhemos[...]no interesse da eudaimoni(felicidade), pensando que a posse deles nos tornará felizes.”
Esse Sumo Bem é a eudaimonia, que significa vida plena, vida humana perfeita, felicidade.
“Outra crença que se harmoniza com a nossa concepção é a de que o homem feliz vive bem e age bem; pois definimos praticamente a felicidade como uma espécie de boa vida e boa ação. [...]Também se ajusta à nossa concepçãoa dos que identificam a felicidade com a virtude em geral ou com alguma virtude particular, pois que à virtude pertence a atividade virtuosa.”
Porém, a felicidade não pode ser identificada com os prazeres mundanos (porque são passageiros), com as honras políticas(porque dependem mais de quem concede do quem as recebe) ou com a riqueza (que não traz felicidade em si mas permite que adquiramos coisas que podem trazer felicidade). Assim, a felicidade é identificada com a virtude.
“E, no entanto [...]ela[a felicidade] necessita igualmente dos bens exteriores; pois é impossível, ou pelo menos não é fácil, realizar atos nobres sem os devidos meios.”
Os prazeres, as honras e a riqueza são fundamentais para a felicidade.
Podemos perceber aqui a diferença da ética aristotélica com as éticas ascéticas, ou seja, as éticas que acreditam que a vida virtuosa é caracterizada pela superioridade da vida espiritual em relação à vida material e que devemos nos abster das coisas mundanas para adquirirmos a verdadeira felicidade.
“Ora, se a função do homem é uma atividade da alma que segue ou que implica um princípio racional[...]e afirmamos ser a função do homem uma certa espécie de vida, e esta vida uma atividade ou ações da alma que implicam um princípio racional; e acrescentamos que a função de um bom homem é uma boa e nobre realização das mesmas; e se qualquer ação é bem realizada quando está de acordo com a excelência que lhe é própria; se realmente assim é, o bem do homem nos aparece como uma atividade da alma em consonância com a virtude, e, se há mais de uma virtude, com a melhor e mais completa.[...]Portanto, se isto vale para todos os casos, a virtude do homem também será a disposição de caráter que o torna bom e que o faz desempenhar bem a sua função."
Tudo no universo tem uma função e a do homem é a atividade da alma, isto é, as ações autárquicas. Essas ações são identificadas com a vida virtuosa que permite atingir a felicidade.
Os bens podem ser divididos em: exteriores e os interiores. Os exteriores são os prazeres sensíveis: gula, sensualidade, etc. Isso quer dizer que eles não dependem de nós mas dos objetos externos e a forma como esses nos afetam. Já os bens interiores são aqueles relativos à alma. São bens ativos, ou seja, permitem a autarquia, o governo de si.
“Uma vez que a presente investigação não visa ao conhecimento teórico como as outras - porque não investigamos para saber o que é a virtude, mas a fim de nos tornarmos bons, do contrário o nosso estudo seria inútil -, devemos examinar agora a natureza dos atos, isto é, como devemos praticá-los.”
Segue-se então que a ética, apesar de ter um valor em si mesma, pode ser considerada como um caminho para a virtude e, consequentemente, para a felicidade.
“Sendo, pois, de duas espécies a virtude, intelectual e moral, a primeira, por via de regra, gera-se cresce graças ao ensino - por isso requer experiência e tempo; enquanto a virtude moral é adquirida em resultado do hábito, donde ter-se formado o seu nome por uma pequena modificação da palavra (hábito). Por tudo isso, evidencia-se também que nenhuma das virtudes morais surge em nós por natureza; [...] Com efeito, as coisas que temos de aprender antes de poder fazê-las, aprendemo-las fazendo; por exemplo, os homens tornam-se arquitetos construindo e tocadores de lira tangendo esse instrumento. Da mesma forma, tornamo-nos justos praticando atos justos, e assim com a temperança, a bravura, etc.”
As virtudes são desenvolvidas pela educação; elas não são naturais no homem(mas também não são contra a sua natureza).
“[...]a virtude moral é um meio-termo, e em que sentido devemos entender esta expressão; e que é um meio-termo entre dois vícios, um dos quais envolve excesso e o outro deficiência, e isso porque a sua natureza é visar à mediania nas paixões e nos atos."
“O mesmo acontece com a temperança, a coragem e as outras virtudes, pois o homem que a tudo teme e de tudo foge, não fazendo frente a nada, torna-se um covarde, e o homem que não teme absolutamente nada, mas vai ao encontro de todos os perigos, torna-se temerário; e, analogamente, o que se entrega a todos os prazeres e não se abstém de nenhum torna-se intemperante, enquanto o que evita todos os prazeres, como fazem os rústicos, se torna de certo modo insensível.”
“Por outro lado, é possível errar de muitos […] mas só há um modo de acertar. Por isso, o primeiro é fácil e o segundo difícil — fácil errar a mira, difícil atingir o alvo. Pelas mesmas razões, o excesso e a falta são característicos do vício, e a mediania da virtude: Pois os homens são bons de um modo só, e maus de muitos modos."
"[…] A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática.”
Diferença entre sabedoria prática (sophrosýne) e sabedoria teórica. Enquanto a última diz respeito ao conhecimento especulativo a primeira indica a forma adequada de se viver.
“[…]as coisas nobres e boas da vida só são alcançadas pelos que agem retamente."
"Sua própria vida é aprazível por si mesma. Com efeito, o prazer é um estado da alma, e para cada homem é agradável aquilo que ele ama: não só um cavalo ao amigo de cavalos é um espetáculo ao amador de espetáculos, mas também os atos justos ao amante da justiça e, em geral, os atos virtuosos aos amantes da virtude.”
POLÍTICA
“A observação nos mostra que cada Estado é uma comunidade estabelecida com alguma boa finalidade, uma vez que todos sempre agem de modo a obter o que acham bom. Mas, se todas as comunidades almejam o bem, o Estado[pólis] ou comunidade política, que é a forma mais elevada de comunidade engloba tudo o mais, objetiva o bem nas maiores proporções e excelência possíveis.”
O bem é apresentado novamente como aquilo que as pessoas visam. E é somente a partir da vida na pólis que esses bens podem ser encontrados de maneira elevada.
“É um erro supor que sejam as mesmas relações entre um estadista e o Estado, entre um rei e seus súditos, entre um chefe de família e sua casa, entre senhores e escravos. Com efeito, elas diferem não apenas no tamanho, mas na espécie.”
Não se pode considerar o Estado como uma família grande. As relações entre elas são de naturezas diferentes.
“Quando várias aldeias se unem numa única comunidade, grande o bastante para ser auto-suficiente[...], configura-se a cidade, ou Estado – que nasce para assegurar o viver e que, depois de formada, é capaz de assegurar o viver bem. Portanto, a cidade-Estado é uma forma natural de associação, assim como o eram as associações primitivas das quais ela se originou.”
"[...]Por conseguinte, é evidente que o homem é, por natureza, um animal político. E aquele que por natureza, e não por mero acidente, não tem cidade, nem Estado, ou é muito mau ou muito bom, ou sub-humano ou super-humano.”
Os homens procuram viver em sociedade para um viver bem(e não somente para sobreviver). E essa associação política faz parte de sua natureza.
“A natureza não faz nada em vão, e o homem é o único animal que tem o dom da palavra. E mesmo que a mera voz sirva para nada mais do que uma indicação de prazer ou de dor, e seja encontrada em outros animais, o poder da palavra tende a expor o conveniente e o inconveniente, assim como o justo e o injusto. Essa é uma característica do ser humano, o único a ter a noção do bem e do mal, da justiça e da injustiça. E é a associação de seres que têm uma opinião comum acerca desses assuntos que faz uma família ou uma cidade.”
A capacidade de comunicação aparece como elemento fundamental para a vida em comunidade.
“O Estado tem, por natureza, mais importância do que a família e o indivíduo, uma vez que o conjunto é necessariamente mais importante do que as partes. Separem-se do corpo os pés e as mãos e eles não serão mais nem pés nem mãos(a não ser nominalmente, o que seria o mesmo que falar em pés e mãos esculpidos em pedra); destruídos, não terão mais o poder e as funções que os tornavam o que eram. Assim, embora usemos as mesmas palavras não estamos falando das mesmas coisas.”
A finalidade é o elemento primordial para se definir o ser dos entes. O que define algo é sua finalidade. Desta forma, como o homem é por natureza um animal político, ou seja, que tem como finalidade a vida em comunidade, então, quando isolado, ele está em discordância desse fim.
“A prova de que o Estado é uma criação da natureza e tem prioridade sobre o indivíduo é que este, quando isolado, não é auto-suficiente; no entanto ele o é como parte isolada do conjunto. Mas aquele que for incapaz de viver em sociedade, ou que não tiver necessidade disso por ser auto-suficiente, será uma besta ou um deus, não uma parte do Estado."
Foco na auto-suficiência como indicação de que algo pode ser considerado como natural. Os homens isolados não são suficientes, portanto a vida solitária não é natural. Porém, ao viverem em sociedade, os homens adquirem essa auto-suficiência, logo o viver em sociedade é natural.
“Um instinto social é implantado pela natureza em todos os homens, e aquele que primeiro fundou o Estado foi o maior dos benfeitores. Isso porque o homem, quando apartado da lei e da justiça, é o pior de todos; uma vez que a injustiça armada é a mais perigosa, e ele é naturalmente equipado com braços, pode usá-los com inteligência e bondade, mas também para os piores objetivos. É por isso que, se o ser humano não for excelente, será o mais perverso e selvagem dos animais, o mais repleto de luxúria e de gula. Mas a justiça é o vínculo dos homens, nos Estados; porque a administração da justiça, que é a determinação daquilo que é justo, é o princípio da ordem numa sociedade política.”
O homem tem a potência de ser o mais excelente de todos os seres, no entanto, ao mesmo tempo, se não tiver as suas ações em consonância com a virtude, poderá se tornar o pior dos seres. É função do Estado criar as condições para que haja um conjunto de mecanismos educativos que desenvolvam as virtudes no cidadão.
“A finalidade de todo conhecimento e de toda a atividade é a virtude. Isso é especialmente verdade em relação às atividades mais importantes, a do Estado e a do cidadão. No Estado, a virtude objetivada é a justiça; e isso significa justiça para toda a comunidade. Está muito claro que a justiça, numa comunidade significa igualdade para todos. Essa afirmação não é incoerente com a teoria da justiça que expliquei em minha Ética, pois envolve os mesmos princípios – de que a justiça relaciona-se a pessoas e que a igualdade deve ser igual para os iguais.”
BIBLIOGRAFIA:
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. Col. Os Pensadores.
ARISTÓTELES. A Política. Tradução Baby Abrão. Col. Os Pensadores.
CHAUÍ, Marilena. Introdução a História da Filosofia Volume 1. São Paulo, Companhia das Letras. 2002.
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