Texto: Filosofia (Vinícius Gomes)
Sempre nos perguntamos para quê serve a filosofia? Mas antes de procurarmos responder a essa questão, deveríamos nos perguntar que tipo de conhecimento é a filosofia? Em primeiro lugar, devemos ter em mente que a filosofia é um tipo de conhecimento bem distinto de muitos outros conhecimentos. Só para citar um exemplo, os mitos eram tidos como verdades absolutas e não podiam ser questionados. Porém a filosofia vai de encontro ao modo de conhecimento mítico. Nesse sentido, podemos começar dizendo que ela se distingue dos demais já na sua definição.
Para quem não se lembra, ela é formada por duas palavras gregas philos e sofós que querem dizer amor, amizade e sabedoria, respectivamente. Daí, podemos tirar que a filosofia é um amor à sabedoria ou uma amizade pela sabedoria. O filósofo é aquele que simpatiza com a sabedoria e vai ao seu encontro. Guardemos essa informação. Mas o que significa dizer que o filósofo está sempre buscando a sabedoria? Devemos então descobrir o que é essa sabedoria. Para tanto, temos que dizer, em primeiro lugar, que há uma diferença entresabedoria e saber.
Saber significa a posse de algum conhecimento e isso se dá através da colocação de perguntas e respostas. Quando encontramos soluções para os problemas propostos, encontramos o saber sobre aquilo que foi nossa investigação. A sabedoria é diferente. Ela requer que tenhamos um espírito indagador, ou seja, que sejamos capazes de criar problemas, de criar perguntas e não necessariamente encontrar as respostas para elas. O espírito indagador que a filosofia requer não nos garante encontrar as respostas para todas as coisas, para todos os problemas que levantamos. Com isso, já podemos dizer que ela é um conhecimento especulativo da realidade e de todas as coisas. Na nossa comparação, falamos que os mitos eram verdadeiros, mas não dissemos que uma de suas funções era explicar como surgem as coisas, por exemplo, inclusive as coisas da realidade. A filosofia não se preocupa em ter as respostas, mas busca sempre encontrá-las. Ela pensa sobre todas as coisas e rompe com a sabedoria mítica ao indagar sobre o que é a realidade, ao buscar o conhecimento do mundo em sua natureza última, por exemplo. Cabe aqui uma importante diferença entre o sábio e o filósofo: o sábio era aquele que detinha o saber e o filósofo, como pudemos entender, é aquele que busca a sabedoria.
A filosofia nos indica caminhos a percorrer para que cheguemos a uma solução. Ao contrário dos mitos e de outras formas de conhecimento, ela não nos dá respostas prontas e acabadas. Talvez resida aí o fato de ela ser considerada uma disciplina difícil. Mas se pensarmos bem reside aí também o fato de ela ter o poder fazer com nós do senso comum enxerguemos as coisas de um novo modo: com ela, temos um olhar muito mais crítico de tudo o que se encontra a nossa volta. Com essa visão mais crítica, pensando por um lado mais político, tendemos à libertação das amarras ideológicas que nos são impostas, pois ela possibilita um livre pensar sobre todas as coisas. Mas é importante destacar que não podemos sair por aí levantando problemas sem nenhum embasamento. Nesse sentido, ela se torna um conhecimento fundamentado sobre todas as coisas.
Agora entendemos porque a filosofia é um amor pela sabedoria, porque a sabedoria não nos deixa com apenas uma visão das coisas, mas nos dá uma visão ampla e, muitas vezes, crítica da realidade. Mas é preciso mais do que palavras para entendermos a filosofia, é preciso fazer filosofia para que tenhamos uma melhor compreensão do que seja ela. Nesse sentido, podemos perguntar: como, então, fazer filosofia? A resposta vem com uma ideia de Platão onde a primeira virtude do filósofo seria a admiração. Para ele, através da admiração é que podemos chegar à filosofia e ao filosofar.
Vemos aqui que Platão instaura uma atitude filosófica. Para se filosofar, segundo Platão, temos que ter a atitude de nos admirarmos com alguma coisa. A palavra grega para essa admiração é thauma e é ela que nos abre à capacidade de problematizar. Há um filósofo alemão do século XVIII chamado Immanuel Kant que diz que não se pode aprender filosofia, só se pode aprender a filosofar. Vemos nas palavras de Kant o que acabamos de dizer: para se aprender filosofia, devemos aprender a filosofar e aprender a filosofar significa ter uma série de atitudes, dentre elas a admiração por algo. Ela é instituinte, na medida em que questiona o que já está instituído.
Nesse sentido, vemos que a filosofia não está longe de nós, mas mais bem perto do que imaginávamos. Ela se preocupa com coisas do nosso cotidiano que para pessoas do senso comum são abstrações. As questões filosóficas são muito concretas, porém não conseguimos enxergá-las por estarmos presos aos padrões já estabelecidos.
Com todas essas informações acerca da filosofia, podemos agora nos perguntar: qual será o processo que nos levará ao filosofar? Bem, devemos primeiro entender que filosofia se difere de filosofia de vida. Todos nós temos indagações diárias sobre quaisquer coisas que costumamos fazer. Todavia essas indagações não são propriamente filosóficas porque é um "filosofar" espontâneo do homem do senso comum. Quando esse homem tem o bom senso em escolher deliberadamente e com certa organização sobre dúvidas advindas de problemas comuns do cotidiano é que podemos dizer que ele está fazendo sua filosofia de vida. Entretanto o filósofo é um especialista e não pensa somente em questões como morar em casa ou apartamento, cujo interesse atinge a qualquer um.
O livro Para filosofar: introdução e história da filosofia do professor da Universidade Gama Filho Severo Hryniewicz coloca uma metáfora para falar da especificidade da filosofia que nos cabe. Ele diz que há "montanhas" ou "regiões" do conhecimento onde habitam pessoas e essas pessoas, uma vez ou outra, trocam visitas, mas que cada uma habita sua montanha. Isso quer dizer que cada especialista é especialista na sua área e que, vez ou outra, conversam entre si, trazendo certa interação entre os saberes. Sabendo que cada região do saber tem suas especificidades, vejamos então quais são as da filosofia.
A filosofia propriamente dita surge no momento em que o pensar é posto como objeto, ou seja, quando o pensar em coisas comuns passa a ser uma reflexão sobre o próprio pensamento fundante das indagações do cotidiano. Refletir significa retomar ao próprio pensamento, voltarmos para nós mesmos e colocarmos em questão aquilo que já conhecemos. Esse é o primeiro passo para se filosofar e, "segundo o professor Dermeval Saviani, a reflexão filosófica é radical, rigorosa e de conjunto" (colocar nota de rodapé com bibliografia). Vejamos o que seria isso.
- Radical: a palavra radical, para nós, significa "fundamento, base". No sentido corriqueiro, ela quer dizer que algo é intransigente. Na filosofia, a usamos como sendo o fundamento, pois ela busca explicitar os conceitos fundamentais usados em todos os campos do pensar e do agir;
- Rigorosa: o filósofo deve dispor de um método para fundamentar sua filosofia e esse método deve ser claramente explicitado, para que ele possa agir com rigor, garantindo coerência e o exercício da crítica. Ele precisa dessa especificidade porque tudo que ele diz deve ser muito bem fundamentado por argumentos;
- De conjunto: isso significa dizer que a filosofia é globalizante. As ciências usam recortes da realidade para dizer suas verdades; já a filosofia busca examinar os problemas de modo a relacionar os diversos aspectos da ação humana, que nunca são separados entre si. As ciências são particulares, no sentido de que elas se utilizam dos recortes. Nesse sentido, podemos dizer que a filosofia busca o todo, a totalidade.
Assim, vimos que a filosofia não é só mais uma disciplina que temos que estudar, mas que ela nos pode ser muito útil para que possamos entender as diversas relações existentes no mundo e na natureza, pois o objeto de estudo da filosofia não é como o objeto de estudo das ciências. As ciências têm vários objetos de estudo, mas se ocupam apenas com os seus: a química se ocupa com os processos químicos, a biologia se ocupa com processos biológicos e assim por diante, enquanto que à filosofia nada escapa.
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Texto: Religião como forma de conhecimento (Danilo Bantim)
Há muitos modos de se conhecer o mundo, que dependem da situação do sujeito diante do objeto do conhecimento. A mitologia e a religião são formas de conhecer o mundo. São modos do conhecimento, assim como a filosofia e a ciência. Todos eles são formas de conhecimento, pois cada um, a seu modo, desvenda os segredos do mundo, explicando-o ou atribuindo-lhe um sentido. Conhecimento religioso Religião deriva do termo latino "Re-Ligare", que significa "religação" com o divino. Essa definição engloba necessariamente qualquer forma de aspecto místico e religioso, abrangendo seitas, mitologias e quaisquer outras doutrinas ou formas de pensamento que tenham como característica fundamental um conteúdo Metafísico, ou seja, de além do mundo físico. O conhecimento religioso implica na crença de verdades obtidas de forma divina ou sobrenatural, cujas evidências não podem ser comprovadas, sendo geralmente relegadas à fé ou crença pessoal. Se baseia na revelação, ou seja, na aceitação de uma narrativa que explique uma visão de mundo. Essa narrativa não precisa ser verdadeira, mas verossímil. Sua transmissão se dá por uma tradição, envolvendo grupos de pessoas que têm na religião um laço de afinidade, e geralmente vem acompanhada de ritos, iconografia, proibições e tabus. A fé seria o sentimento de pertencimento a essa comunidade de crentes, somada à satisfação pessoal em possuir a resposta para os mistérios que atormentam a raça humana. Desta forma, o conhecimento religioso se baseia em dogmas que não podem ser refutados nem submetidos à análise científica, e também na noção de sagrado. DOGMA Dogmas são encontrados em muitas religiões como o cristianismo, islamismo e o judaísmo, onde são considerados princípios fundamentais que devem ser respeitados por todos os seguidores dessa religião. Como um elemento fundamental da religião, o termo "dogma" é atribuído a princípios teológicos que são considerados básicos, de modo que sua disputa ou proposta de revisão por uma pessoa não é aceita nessa religião. Dogma se distingue da opinião teológica pessoal. Dogmas podem ser clarificados e elaborados, desde que não contradigam outros dogmas. A rejeição do dogma é considerado heresia ou blasfêmia em determinadas religiões, e pode levar à expulsão do grupo religioso. SAGRADO Sagrado (do latim sacratu) refere-se a algo que merece veneração ou respeito religioso por ter uma associação com uma divindade ou com objetos considerados divinos. O sagrado se relaciona com a santidade. Santidade é, em geral, o estado de ser santo (percebido pelos religiosos como os indivíduos associados com o divino) ou sagrados (considerados dignos de respeito e devoção espiritual, ou que inspiram temor ou reverência entre os crentes em um determinado conjunto de ideias espirituais). Em outros contextos, os objetos são muitas vezes considerados santos 'ou' sagrados, se utilizado para fins espirituais, como o culto dos deuses ou serviço. Estes termos também podem ser usados em um contexto não-espiritual ou semi-espiritual ( "sagradas verdades", em uma constituição). Muitas vezes, é atribuída a pessoas ("um homem santo" de profissão religiosa, "santo profeta", que é venerada por seus seguidores), objetos ( "sagrado artefato" que alguém adorava), tempos ( "dias santos" da introspecção espiritual, tais como durante os feriados religiosos), ou lugares ( "solo sagrado", "lugar sagrado"). Mito e Religião O mito é uma coleção de contos e lendas com uma concepção mística em comum, sendo parte integrante da maioria das religiões, mas suas formas variam grandemente dependendo da estrutura fundamental da crença religiosa. Desse modo, não há religião sem mitos, mas podem existir mitos que não participem de uma religião. A partir destas definições, podemos fazer as seguintes distinções entre mito e religião: · Enquanto os mitos, em geral, estão vinculados à tradição oral, as religiões possuem um texto sagrado (Bíblia, Alcorão, Torah, etc.) como fonte das verdades reveladas por Deus; · Enquanto o mito tende a ser cultuado sem questionamento, as religiões produziram a teologia, para buscar o esclarecimento das verdades reveladas; · O homem mítico estabelece uma espécie de comércio com as divindades, sendo seus rituais uma verdadeira troca de favores; o homem religioso faz da sua crença e dos ritos não só um meio de pedir ajuda a Deus, mas também vê na religião um meio de vivência de sua mais profunda interioridade. Por meio da vida religiosa procura-se a plenitude. O fato de alguém pertencer a uma religião não significa que chegue a viver de fato o sentido da Religião. Superstições, fanatismo, promessas interesseiras e similares afastam o homem da Religião e aproximam-no do Mito.
SÓCRATES 1ª - da Juventude (por ordem alfabética e assunto):
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O termo "dogma" é muitas vezes usado pejorativamente para se referir a qualquer crença que é mantida insistentemente, como nos debates entre os marxistas, ás vezes, é aplicada a convicções políticas, ou ao fanatismo religioso.
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Texto: SOFISTAS, SÓCRATES e PLATÃO (Augusto Carvalho)
Podemos separar esses personagens em duas correntes que disputavam a primazia na formação educacional dos jovens Atenienses, entre os séculos V e IV aC. Por um lado os sofistas, mestres de um saber prático, e os filósofos, amantes do saber verdadeiro.
Para os filósofos, sábio é aquele que detém o saber e assim, nada tem a aprender. Logo, apenas duas categorias de seres se enquadram nesta definição: os deuses que tudo sabem e os tolos que por imaginarem que sabem, deixam de buscar a sabedoria. Assim a filosofia seria o meio de se aproximar à sabedoria, e por conseqüência da divindade. E a sofística, apenas, um saber falso ou um simulacro do saber.
Os sofistas se caracterizavam por não conceber a verdade como um bem absoluto, mas como uma convenção humana. Para eles a verdade se dava de acordo com a interpretação do observador. Um acontecimento não era bom ou mal em si mesmo, mas de acordo com suas conseqüências que eram relativas a interpretações, desta forma, o debate com a exposição da doxa (opinião) das partes envolvidas indicaria a verdade de consenso.
Para compreendermos como essas duas correntes do pensamento se estabeleceram é necessária uma pequena contextualização sobre Atenas, afinal este foi o berço das sociedades ocidentais modernas, com o surgimento da matemática, física, biologia, astronomia, medicina, história, o alfabeto e a escrita articulada gramaticalmente, o teatro e a poesia lírica, os jogos esportivos, as universidades, os exércitos organizados e táticos, o direito com tribunais de júri e inquérito, a prática política, a retórica, a democracia, a liberdade, enfim, a cidadania.
Atenas ocupava a área que se estendia das montanhas ao mar Egeu na Ática. Era organizada em genos, unidade familiar composta de pai, mãe, filhos, escravos, bens, parentes consangüíneos e irmandade religiosa – cada genos estabelecia sua devoção -, seu comando era patriarcal e dividiam-se em: Pentacossiomedinas, agricultores, senhores de terras nas planícies; Hippeis, criadores de cavalos, senhores de terras nas montanhas; Zeugitas, guerreiros hoplitas (hoplon = escudo) e Thetas, trabalhadores autônomos. Os dois primeiros formavam uma elite dominante e aristocrática (aristhoi = melhores) que financiava os terceiros em uma política de expansão territorial e escravista.
Com o aumento da população nos genos, as condições de vida e prosperidade diminuíram, principalmente para aqueles que não pertenciam à cadeia sucessória, o que gerava descontentamento e pedidos de divisão das áreas ou abandono delas para se estabelecerem como comerciantes na costa, ou mesmo, se aventurarem na formação de novas colônias na Ásia Menor (Oriente Médio) ou na Magna Grécia (Itália).
Em 594 aC, Sólon, um Alcmeones – família aristocrática – ciente do descontentamento geral, aproveita-se da tradição das discussões públicas realizadas pelas assembléias dos gene, e institui leis válidas para todos os membros da pólis (cidade-estado) e que não poderiam ser violadas pelas tradições e costumes patriarcais ou despóticos.
Dentre essas leis: acaba a escravidão por dívida; incentiva o comércio e o artesanato; a divisão social deixa de ser familiar e passa a ser pela fortuna pessoal.
Assim, Sólon organiza a pólis: social, econômica e politicamente.
Porém, essas mudanças não resolvem os problemas entre classes e acabam por descontentar a todos. Então, após sua morte, apoiado pelos Thetas, a quem promete terras, Pisístrato um Hippel, toma o poder e torna-se tirano com o título de protetor do demos (povo). Promove uma reforma agrária mantendo as melhores terras com os aristhoi.
Em 510 aC, após a derrubada da tirania, Clístenes, o legislador, promove as reformas dividindo as regiões da Ática (litoral, planície e montanha) em Tritias; cada tritia é formada por um conjunto de demoi; cada grupo de cem demoi constituindo uma unidade política Demos - espécie de Comarca – que por sua vez, tem suas assembléias, seus magistrados, seu espaço público, e suas festas religiosas, onde os atenienses fazem o aprendizado da vida pública. A partir de então o centro da vida política deixa o aspecto familiar ou de origem para se constituir na pólis: Atenas em seu centro urbano.
Houve resistência. Os aristhoi não aceitavam que os metecoi (estrangeiros) atraídos a Atenas por Sólon, passassem a condição de cidadãos. Apesar disso, a democracia se estabelece. Enriquecidos pela condição de importante entreposto comercial que era Atenas, os metecoi passaram a promover a educação de seus filhos em oratória, retórica, lógica, na arte política em geral, para representar seus interesses nas assembléias.
Péricles, 474 aC, estrátego (general), herói da vitória sobre os Persas, governou democraticamente o período de maiores realizações de Atenas e seu povo. Compreendido entre 440 e 404 aC, ficou conhecido como o século (era) de Péricles.
Atenas, pelo papel de liderança na guerra contra os persas, pela prosperidade econômica crescente e pelos poetas que haviam elevado sua vida intelectual a alturas jamais alcançadas antes, tornou-se o centro intelectual da Grécia. Quem quisesse ganhar reputação como pensador tinha de passar em Atenas. Os produtos do mundo inteiro estavam a disposição do cidadão de Atenas. Novas estátuas dos deuses erguiam-se com esplendor; no imortal trabalho dos mais finos artistas. O povo ouvia, nos festivais de Dioniso, as palavras e cantos da tragédia e deliciava-se com a engenhosidade flamejante e barulhenta da comédia. Multidões se acotovelavam nas salas de conferências dos sofistas, com sua nova sabedoria vestida no manto belo e sedutor da linguagem, convidando os jovens a serem seus alunos. O demos aquecia-se ao sol, na serena consciência de seu poder, quando se sentava no Pnyx e nos tribunais. (Zeller, 1931, p.95)
Após a vitória sobre os Persas, Atenas cria uma aliança militar com as pólis da Ásia Menor para evitar uma retomada persa da região: a “Liga de Delos”. A partir da política de expansão ateniense as desavenças com Esparta – que fez acordos comerciais e militares com as outras pólis – aumentaram, até que em 431 aC, estoura a guerra do Peloponeso, que culmina com a derrota de Atenas em 404 aC.
Esparta enfraquecida é, em seguida, derrotada por Tebas.
Todo esse movimento cria o ambiente para que Filipe, rei da Macedônia, invada a Hélade, conquistando toda a Grécia e iniciando o império macedônio, que com Alexandre chega as portas da Índia. A partir de então o heleno perde sua identidade, deixa de ser cidadão de uma pólis para ser um indivíduo “globalizado”; mas isto,...é uma outra história.
SOFISTAS
O sofista, mestre de sabedoria, não é o filosofo, amante que não ousa possuir todo o seu objeto. A sofistica é de início esse movimento que, na aurora da filosofia, seduziu e escandalizou a Grécia inteira. Ao invés de meditar o ser como os eleatas, ou sobre a natureza como os jônios, escolhem ser educadores profissionais, estrangeiros itinerantes que comerciam sua sabedoria, sua cultura, suas competências, seus charmes. São também homens de poder, que sabem como persuadir juízes, comover uma assembléia, executar bem uma embaixada, dar suas leis a uma cidade nova, formar para a democracia, em suma, fazer obra política. Essa mestria tem origem nas técnicas de linguagem sob todas as suas formas: da lingüística = morfologia, gramática, sinonímia; à retórica = estudo dos tropos, das sonoridades, da pertinência, do discurso e de suas partes. (Cassin, 1990, p.7)
Assim como dos pré-socráticos, restaram apenas poucos fragmentos das obras dos sofistas. Basicamente, os relatos de seus opositores – Tucidides, Aristófanes, Xenofonte, Platão e Aristóteles. Nestes, o sofista aparece como impostor, mentiroso e demagogo. Mas é importante frisar que havia um contexto político por trás das posições de ambos os lados.
Caracterizavam-se por serem metecoi – por isso, criticados pelos aristhoi - que buscavam Atenas por reconhecimento e fortuna. Por ter se tornado o centro do mundo grego, porém, e principalmente, pelas reformas que estabeleceram a democracia e com ela uma classe emergente – os enriquecidos comerciantes – que disputava o poder com a antiga aristocracia, Atenas era o cenário perfeito para uma nova habilidade no uso da linguagem publica: a retórica – a arte da persuasão.
A tirania impõe a opinião de um só, a retórica pressupõe o direito de todos à opinião. A retórica é um instrumento da democracia.
Para os sofistas, em um debate sempre haverá alguém que argumente contra sua opinião, portanto a retórica como procedimento de fortalecer um argumento é a técnica daqueles que pretendem expor suas idéias em público.
Oriundos da Jônia (Ásia Menor) e da Magna Grécia, traziam a erudição do berço da filosofia junto à crise que se instalou nela pela oposição irreconciliável entre o ser de Parmênides e o devir de Heráclito. Céticos com a filosofia acreditavam que todas as relações humanas eram frutos de convenções. Individualistas, não podiam ser vinculados a uma escola de pensamento. Tinham habilidades diversas, cada um com uma ou duas especializações, mas o que apresentavam em comum eram as técnicas de argumentação, o profissionalismo, o convencionalismo e o ceticismo. Foram muitos e originais, mas podemos separar em três gerações: os criadores, os propagadores e os seguidores; destas vamos falar de dois da primeira geração, Protágoras e Górgias.
Protágoras de Abdera, primeiro sofista, amigo e conselheiro de Péricles, desempenhou de forma plena os atributos de hábil orador e legislador, foi embaixador, estabeleceu leis para colônias atenienses e trabalhou para a consolidação de sua democracia, mas terminou expulso de Atenas, por conta de um processo de impiedade ocasionado por um discurso - “Sobre os deuses, nada sei, nem sei se existem, nem se não existem, nem qual é sua forma. Efetivamente, numerosos são os obstáculos para o sabermos: o seu caráter obscuro e o fato de a vida do homem ser curta” - e proibido de retornar sob pena de morte. Suas obras foram queimadas na ágora.
É a partir dessa posição agnóstica que o pensamento de Protágoras engendra o que ficou como sua marca a tese do homem medida, pois se os deuses não se deixam afirmar, afirma-se o homem.
“O homem é a medida de todas as coisas, da existência das que existem, da não existência das que não existem” (PLATÂO, Teeteto, 152a )
Interpreta-se esta doutrina como de um relativismo radical, porém Protágoras a utilizava em um contexto de produção de antilogias, onde se produz dois discursos contraditórios, assim como no discurso político, em que o povo ouve os discursos opostos dos dois partidos que se defrontam. Demonstra que a respeito de tudo existem dois discursos que se contradizem um ao outro, cada qual coerente em si mesmo, porém incompatíveis. Então, introduzia a tese do homem medida como superação da dicotomia e fechava a argumentação com a elaboração do discurso forte, onde a opinião singular é fortalecida com o somatório de outras opiniões que lhe são adequadas e do seu encontro é formada a verdade. Mas caso a opinião singular não receba a adesão de outras, então se desfaz e não pode aspirar ao verdadeiro.
Górgias de Leontinos, Sicília, foi outro sofista de grande importância em toda Grécia. Foi discípulo de Empédocles e conheceu as idéias dos jovens Pitagóricos, inclusive as de Melisso de Samos, que escrevera uma obra em defesa do ser, a qual Górgias refuta.
Górgias apresenta os argumentos que o ser não é, se for não pode ser pensado, se pensado não pode ser dito, sua argumentação:
“O ser é, o não ser é. Se o não ser não é, então ele é alguma coisa. O que ele é? Ele é o inexistente. Portanto, o não ser é. O nada existe. Ora, se o não ser é, então seu contrário, o ser, não é".
Se o ser existir não pode ser pensado. Porque o pensado não existe enquanto tal, ou as coisas monstruosas e absurdas como monstros, quimeras e titãs, que os homens pensam, existiriam. Logo, se o pensado não existe, o existente não pode ser pensado.
Se o ser for pensado não pode ser comunicado. Os objetos existentes fora de nós são percebidos pelos nossos sentidos. Assim como não posso ver o som ou escutar cores, também não posso dizer objetos. Cada sentido percebe o que lhe é próprio. Pelas palavras digo palavras e não coisas.(CHAUÍ, 2008, p.173 )
O que Górgias faz é jogar com o uso do verbo ser, que no idioma grego tinha um sentido forte de existir e outro fraco de cópula (ligação), como no português. Assim ao misturar seu sentido nas etapas de sua argumentação, ele quebra a identidade “ser-pensar-dizer” do logos e estabelece a diferença, a separação e a autonomia entre realidade, pensamento e linguagem.
No “Elogio a Helena”, afirma que Helena não pode ser acusada nem condenada, pois pode ter agido por amor ou pelo destino, ordenado pelos deuses, pode ter sido arrastada pela violência do estupro de Páris, como pela persuasão e sedução de sua palavra.
Aqui Górgias dota a palavra persuasiva do mesmo poder divino do destino, invertendo a concepção antiga da fatalidade da vontade dos deuses, pela paixão irresistível das palavras dos homens.
A linguagem é um poder sobre a alma. As palavras podem afligir, alegrar e mesmo levar à virtude. Esse poder da palavra sobre a alma é o alicerce em que se apóia a retórica e a converte numa espécie de psicagogia, isto é, a condução e direção da alma de alguém segundo o desejo daquele que fala. Com Górgias se prepara a definição da retórica como arte de agir sobre o animo ou a paixão do ouvinte, seja pela instrução, seja pela emoção, seja pelo prazer. (CHAUÍ, 2002, p.176)
Protágoras acreditava que a ordem social e política poderia ser mantida se todos os cidadãos aprendessem as técnicas políticas. Górgias defende que a desordem, o conflito de interesses, opiniões e costumes, conduz a uma disputa entre as leis da pólis e entre as pólis, e, portanto, o uso da linguagem não pode instaurar uma mediação racional.
Para Protágoras, a verdade era uma convenção a que se chegava pelo acordo das opiniões conflitantes – era o consenso. Para Górgias, não há verdade possível, nem mesmo por convenção. Em seu lugar, ele coloca a crença, a pistis, obtida pela adesão emocional ao discurso persuasivo. (CHAUÍ, 2008, p.177)
Nasceu em 470 aC em Atenas, era um Thetas, filho de Sofronisco, um escultor, e de Fenarete, uma parteira, abandonou o ofício do pai para se dedicar a filosofia quando contemplando a frase que orna o Oráculo de Delfos - templo à Apolo Delfo – “Conhece-te a ti mesmo”, ouviu seu daimon (voz interior) que interpretou como a orientação que devia dar a sua vida. A partir de então, buscou esse conhecimento para si e procurou fazer com que seus concidadãos também o fizessem.
Não é fácil descrever Sócrates, não acreditava na escrita, chamava-a de palavra morta, pois não responde, não debate, é fruto de uma idéia impositiva e só retorna a lembrança quando a leitura interpretativa volta a pensar na disposição originária da questão. Já o diálogo é vivo, traz as idéias à alma e somente ela pode rememorá-las através da dialética.
Sua ironia ficou famosa e acabou levando-o à morte. Através da máxima “sei que nada sei”, recusava a fama de sábio e justificava-se ao inquirir seus patrícios sobre toda sorte de questões de conduta ético-social.
Acusava os sofistas de perderem a autonomia por ensinarem a quem lhes pagasse, e, portanto a qualquer um, passando a escravos da sua vontade.
Recusava o discurso forte sofista, por estar baseado em opiniões, o que considerava contrário a verdade. Opunha opinião à ciência ou saber verdadeiro, recusando o critério de maioria.
Distinguiu opinião e verdade, sendo a inteligência enquanto reflexão e interrogação sobre a verdade, o poder intelectual, na alma, para descobrir em si mesma e por si mesma, e para dar a si mesma e por si mesma as regras da vida ética virtuosa. Portanto o conhecimento das coisas fundamentais é inato, não pode ser ensinado, apenas despertado, e para tal desenvolveu a técnica da maiêutica.
Maieutica é a prática das parteiras – homenagem a sua mãe – onde a parturiente faz todo o trabalho orientado pela parteira. Assim também era a maiêutica socrática, onde o indivíduo era conduzido por Sócrates, a fazer nascer as idéias de sua alma. Era a ultima parte de seu método de investigação, que consistia em: 1) protréptico (exortação), onde ele convida o interlocutor a filosofar, a buscar a verdade; 2) élenkhos (indagação), dividida em duas partes, a primeira chama-se eiróneia (refutação), tem a finalidade de quebrar a solidez aparente do discurso, demonstrando seus preconceitos recebidos de imagens sensoriais ou de opiniões subjetivas; a segunda parte é a maieutica propriamente dita, onde Sócrates sugere caminhos ao interlocutor, através das perguntas que apresenta, até que este chegue a uma idéia verdadeira.
Por realizar-se sob a forma do dialogo, por produzir argumentos para mostrar que uma opinião é ou parcial, ou confusa, ou contraditória, ou mesmo errada, e por visar a persuadir o interlocutor do erro cometido e da necessidade de prosseguir na investigação, a indução socrática constitui a dialética socrática, (...) diferente da retórica sofista. (CHAUÍ, 2008, p.191)
Mas foi no seu julgamento e condenação a morte, 399 aC, que Sócrates deu a maior mostra de seu caráter e sua ética. Foi acusado pelos cidadãos Anito e Meleto, pelos comediógrafos Crátino, Cálias e Aristófanes, e pelo sofista Lísias, que escreveu a acusação, de impiedade (ensinar novos deuses) e perverter os jovens com seus ensinamentos (fazê-los duvidar dos valores atenienses).
O que a assembléia esperava dele era uma retratação pública, mas ao contrário:
“Atenienses, não me parece ser justo fazer preces ao juiz e conseguir absolvição por meio de súplicas. Ao juiz, é preciso dar esclarecimentos e procurar convencê-lo, pois o juiz não tem assento no tribunal para fazer da justiça um favor, mas para decidir o que é justo. Não devemos, pois, acostumar-vos ao perjúrio nem acostumar-nos a ele, porque uns e outros ofenderíamos aos deuses. Não espereis de mim, atenienses, que diante de vós, eu recorra a práticas que julgo desonestas, injustas e impiedosas. Se, recorrendo às súplicas e preces, eu vos dobrasse e vos forçasse a faltar ao juramento, à verdade, eu vos daria razão para acusar-me no exato momento em que me estaríeis perdoando.” (PLATÃO, Apologia de Sócrates, XXII)
Sócrates tem um jeito de obedecer que é um jeito de resistir (...). Tudo quanto ele faz se organiza em torno desse princípio secreto que irrita os que não conseguem apreendê-lo. Sempre culpado por excesso ou por falta, sempre mais simples e mais breve do que os outros, sempre mais dócil e menos acomodante, causa-lhes mal-estar. Ele lhes inflige a ofensa imperdoável de fazê-los duvidar de si mesmos (...). O que esperam dele é justamente o que não lhes pode dar: o assentimento às coisas, sem considerandos (...). Inverte os papéis e lhes diz: não estou me defendendo, é a vós que estou defendendo. (CHAUÍ, 2008, p.206, citando Merleau-Ponty, Elogio da Filosofia)
Sócrates foi, sem dúvida, controverso, foi o paradigma da verdade para Xenofonte, um sofista embusteiro para Aristófanes e o modelo de filósofo para Platão.
PLATÃO
Platão nasceu em 427/428 aC, de família aristocrática ateniense (Alcmeones), seu pai, Aristo, descendia a Codro o ultimo rei de Atenas, e sua mãe, Perictione, de Sólon o grande legislador, irmã de Cármides e prima de Crítias, dois dos “Trinta Tiranos”. Convivendo com os bastidores da política desde cedo não a seguiu como carreira, deixando a seu irmão do meio, Gláucon, esse encargo. Dedicou-se primeiramente ao esporte da luta Grega onde foi premiado em dois Jogos Ístmicos. Como não conseguiu ir aos Jogos em Olímpia optou, em seguida, pela poesia trágica, mas não convenceu os juízes em nenhum grande concurso literário. Neste período teve contato com a filosofia através de Crátilo que o iniciou no pensamento de Heráclito de Éfeso, sentindo-se apto ao desenvolvimento intelectual inteirou-se das obras Eleatas de Xenófanes, Parmênides e Zenão, que juntas, a de Heráclito, o influenciaram a ponto de trabalhar para unificá-las em sua própria obra. Conheceu Sócrates e se encantou com seu discurso moral, tornou-se discípulo seguindo o mestre pelos nove anos seguintes.
Com a condenação e morte de seu mestre e em posição desfavorável Platão, passa a um período de viagens e contatos com outras fontes de conhecimento, em Mégara estuda lógica com Euclides por três anos; parte para Cirene, norte da África, para estudar com o matemático Teodoro; depois segue para o Egito e aparentemente encontrou-se com magos Persas. Certo mesmo é que volta para a Grécia para conhecer o monte Etna, na Sicília, onde Empédocles havia se atirado para provar ser imortal, lá teve contato com a escola Pitagórica dos números e harmonia musical.
Ainda na Sicília, Platão, torna-se amigo íntimo de Díon, cunhado de Dionísio, rei poeta, tirano de Siracusa. Em uma das versões, Platão visita a corte Siracusana convidado por Dion, seus hábitos de aristocrata ateniense conflitam com a fartura italiana à mesa e à cama, assim após discussão com o rei é feito escravo - Dionísio deve ter sido comediógrafo - e mandado a ilha de Égina, possível cidade natal de Platão, em um navio espartano onde foi comprado por um amigo, Anqueris o Cirenaico, que de tão feliz com a barganha ainda enviou-lhe de volta a Atenas com quantia suficiente para comprar um lote de terra nos “Jardins de Academos”, onde, em 386 aC, fundou sua Academia, nela, buscava realizar o ideal socrático da autonomia da razão em todos os campos do saber, funcionou até 529 dC.
Após, outras duas desastrosas viagens a Siracusa, também por convite de Dion, com intenção de colocar em prática sua utópica “República” transformando o herdeiro em um rei-filósofo, acaba preso, suspeito de participar do golpe de estado arquitetado por seu amigo, retorna a Atenas para nunca mais sair. Platão morre em 348/347 aC, aos 81 anos.
Pouco antes, escreve uma carta, a sétima, para os familiares de Dion, onde relata os acontecimentos em Siracusa. Nela acusa Dionísio II de desfigurar seu pensamento, e acaba por explicar porque escreveu sua obra:
“Uma coisa posso afirmar com força, concernente a todos os que escreveram ou escreverão sobre o que é o objeto de minhas preocupações (...). Sobre isso, não tenho nem terei jamais uma obra escrita (...). Em contrapartida, julguei que uma versão dessas preocupações deveria ser posta por escrito de um modo que a maioria pudesse ler e entender e isso seria uma bela obra de minha vida: confiar ao escrito o que é a maior utilidade para os humanos e trazer à luz a verdadeira natureza das coisas, para que todos possam vê-la.” (PLATÃO, Carta VII)
Deixou 27 obras, sendo 23 diálogos, separados em: socráticos – os que expõem as idéias de Sócrates – e não socráticos – os que expõem as suas próprias idéias. São, ainda, divididos em três fases:
Apologia de Sócrates – defesa e refutação das acusações sofridas;
Criton – sobre a virtude e elogio da moral socrática, a filosofia como missão;
Cármides – sobre a prudência ou sabedoria;
Crátilo – sobre a linguagem e contra o verbalismo;
Eutidemo – contra a erística, isto é, o discurso estéril e sem busca da verdade;
Eutifron – sobre a piedade;
Górgias – sobre a retórica como mentira, adulação e veneno;
Hípias menor – sobre a beleza, retrato crítico do sofista como máscara;
Hípias maior – sobre o belo;
Ion – sobre a Ilíada ou os rapsodos
Láques – sobre a coragem;
Lisis - sobre a amizade;
Menexeno – sátira contra a retórica (oração fúnebre à esposa de Péricles);
Ménon – sobre a virtude e o saber (primeira exposição sobre a reminiscência);
Protágoras – sobre o ensino da virtude.
2ª - da Maturidade (por ordem alfabética e assunto):
Banquete – sobre o amor;
Fédon – sobre a imortalidade da alma;
Fedro – sobre a linguagem e a retórica;
República – sobre a justiça na ética e na política, ou a cidade perfeita;
Parmênides – sobre o ser;
Teeteto – sobre a ciência e as artes, ou sobre o conhecimento;
3ª - da Velhice (por ordem alfabética e assunto):
Crítias (inacabado) – o estado agrário como Estado ideal (crítica ao imperialismo comercial de Atenas, figurada como Atlantida);
Filebo – sobre os fundamentos da ética;
Leis – o ideal político adaptado às condições concretas;
Político – sobre o político e a ciência divina dos laços;
Sofista – contra o sofista;
Timeu (inacabado) – física e cosmologia platônicas.
Da influência socrática ficou a austeridade ética e o rigor na concepção de idéias; do sentimento de injustiça, cometido pela sociedade à seu mestre, ficou a insatisfação com as práticas políticas. Para fazer frente às práticas sofistas, defender a virtude e redimir a filosofia, Platão enfrenta a questão do ser e do devir, mostrando que a diferença entre essas duas concepções, está na forma de apreendermos o conhecimento, que pode ser sensível ou inteligível.
O mundo sensível é o mundo das coisas vivas e visíveis, das crenças e opiniões. É o mundo do movimento e das mudanças. Apreensível pelos sentidos não vão além das aparências, e, portanto, nos dão uma impressão subjetiva das coisas sem tocar a essência delas. É o lugar do senso comum.
O mundo inteligível é o das formas e idéias, eterno e imutável. É alcançável através da dialética ascendente, ou diánoia, de onde, primeiro pelo raciocínio dedutivo, chega-se aos objetos matemáticos; e depois pela intuição intelectual chega-se as idéias puras: a Verdade.
As idéias puras são descritas por Platão, como a essência das coisas materiais, assim, o homem, por exemplo, tem uma “homicidade” que o faz reconhecível como tal, mesmo com toda a diversidade de formas e características que individualmente apresente. Para Platão todas as coisas conhecidas no mundo sensível são representações de idéias as quais correspondem no mundo inteligível, tendo a idéia de Bem como superior a todas. Por serem puras não apresentam contradição, dúvida ou opinião possível, portanto, a verdade daquilo a que são referidas. Então, o mundo sensível é apenas uma cópia imperfeita do mundo inteligível.
Há, ainda, um nível inferior ao mundo das coisas vivas, que é o mundo das imagens, da imaginação e do simulacro. Neste são reproduzidos, pelo homem, objetos sensíveis, que não passam de cópias das cópias dos objetos ideais, portanto, com menos valor ainda. Platão definia a arte mimética (mimétis = espelhar) como simulacro, ou seja, algo que simula o real; o falso.
Para demonstrar o movimento de saída do mundo sensível para o mundo inteligível, Platão utilizou como forma literária, os mitos, dentre eles o mais conhecido é o “mito da caverna”:
“Imaginemos uma caverna subterrânea separada do mundo externo por um alto muro. Entre este e o chão da caverna há uma fresta por onde passa alguma luz exterior, deixando a caverna na obscuridade quase completa. Desde seu nascimento, geração após geração, seres humanos ali estão acorrentados, sem poder mover a cabeça na direção da entrada, nem locomover-se, forçados a olhar apenas a parede do fundo, vivendo sem nunca ter visto o mundo exterior nem a luz do Sol, sem jamais ter efetivamente visto uns aos outros, pois não podem mover a cabeça nem o corpo, e sem se ver a si mesmos porque estão no escuro e imobilizados. Abaixo do muro, do lado de dentro da caverna, há um fogo que ilumina vagamente o interior sombrio e faz com que as coisas que se passam do lado de fora sejam projetadas como sombras nas paredes do fundo da caverna. Do lado de fora, pessoas passam conversando e carregando nos ombros figuras ou imagens de homens, mulheres, animais cujas sombras também são projetadas na parede da caverna, como num teatro de fantoches. Os prisioneiros julgam que as sombras de coisas e pessoas, os sons de suas falas e as imagens que transportam nos ombros são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são seres vivos que se movem e falam.
Um dos prisioneiros inconformado com a condição em que se encontra, decide abandoná-la. Fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. De inicio, move a cabeça, depois o corpo todo, a seguir, avança na direção do muro e o escala. Enfrentando as durezas de um caminho íngreme e difícil, sai da caverna. No primeiro instante, fica totalmente cego pela luminosidade do Sol,com a qual seus olhos não estão acostumados. Enche-se de dor por causa dos movimentos que seu corpo realiza pela primeira vez e pelo ofuscamento de seus olhos sob a ação da luz externa, muito mais forte do que o fraco brilho do fogo que havia no interior da caverna. Sente-se dividido entre a incredulidade e o deslumbramento. Incredulidade porque será obrigado a decidir onde se encontra a realidade: no que vê agora ou nas sombras em que sempre viveu. Deslumbramento porque seus olhos não conseguem ver com nitidez as coisas iluminadas. Seu primeiro impulso é retornar à caverna para livrar-se da dor e do espanto. Embora esteja reconquistando sua verdadeira natureza, o sofrimento que essa reconquista lhe traz é tão grande que se sente atraído pela escuridão, que lhe parece mais acolhedora. Além disso, precisa aprender a ver e esse aprendizado é doloroso, fazendo-o desejar a caverna, onde tudo lhe é familiar e conhecido.
Sentindo-se sem disposição para regressar à caverna por causa da rudeza do caminho, o prisioneiro permanece no exterior. Aos poucos, habitua-se à luz e começa a ver o mundo. Encanta-se, tem a felicidade de finalmente ver as próprias coisas, descobrindo que estivera prisioneiro a vida toda e que em sua prisão vira apenas sombras. Doravante, desejará ficar longe da caverna para sempre e lutará com todas as suas forças para jamais regressar a ela. No entanto, não pode evitar de lastimar a sorte dos outros prisioneiros e, por fim, toma a difícil decisão de regressar ao subterrâneo sombrio para contar aos demais o que viu e convencê-los a se libertarem também.
Assim como a subida foi penosa, porque o caminho era ingrato e a luz ofuscante, também o retorno será penoso, pois será preciso habituar-se novamente às trevas, o que é muito mais difícil do que habituar-se à luz. De volta a caverna, o prisioneiro fica cego novamente, mas, agora, por ausência de luz. Ali dentro, é desajeitado, inábil, não sabe mover-se entre as sombras nem falar de modo compreensível para os outros, não sendo acreditado por eles. Torna-se objeto de zombaria e riso, e correrá o risco de ser morto pelos que jamais se disporão a abandonar a caverna.
A caverna é o mundo sensível onde vivemos. O fogo que projeta as sombras na parede é um reflexo da luz verdadeira sobre o mundo sensível. Somos os prisioneiros. As sombras são as coisas sensíveis, que tomamos pelas verdadeiras, e as imagens ou sombras dessas sombras, criadas por artefatos fabricadores de ilusões. Os grilhões são nossos preconceitos, nossa confiança em nossos sentidos, nossa paixões e opiniões. O instrumento que quebra os grilhões e permite a escalada do muro é a dialética. O prisioneiro curioso que escapa é o filosofo. A luz que ele vê é a luz plena do ser, isto é, o Bem, que ilumina o mundo inteligível como o Sol ilumina o mundo sensível. O retorno à caverna para convidar os outros a sair dela é o diálogo filosófico, e as maneiras desajeitadas e insólitas do filósofo são compreensíveis, pois quem contemplou a unidade da verdade já não sabe lidar habilmente com a multiplicidade das opiniões nem mover-se com engenho no interior das aparências e ilusões. Os anos despendidos na criação do instrumento para sair da caverna são o esforço da alma para libertar-se. Conhecer é, pois, um ato de libertação e iluminação. A Paidéia (escola) filosófica é uma conversão da alma voltando-se do sensível para o inteligível. Essa educação não ensina coisas nem nos dá a visão, mas ensina a ver, orienta o olhar, pois a alma, por sua natureza, possui em si mesma a capacidade para ver.” (CHAUÍ, 2008, p.261, citando PLATÂO, A República Livro VII)
Aqui Platão apresenta a dialética em suas duas formas: ascendente – a saída da caverna – e descendente – o retorno à caverna. Mostra a necessidade de um primeiro impulso de inconformismo da alma que empurra o corpo na direção do conhecimento verdadeiro, mas que após a visão do mundo ideal tem a obrigação de retornar ao mundo sensível, para praticar com os outros o trabalho de subir até as idéias.
O que está em jogo é o estabelecimento de uma nova paidéa, que seja filosófica, que confronte com a sofística, e, portanto, que ensine o Belo, o Justo e o Bem, e que acima de tudo exprima a Verdade.
Voltando ao mithós, Platão precisa explicar porque alguns homens sentem este impulso na alma que os leva ao mundo das idéias. “De onde vem o desejo de sair da caverna?”; como podem supor que exista algo para além dela? Assim, Platão apresenta o mito de Er, ou da reminiscência, onde:
O pastor Er, da Panfilia, é conduzido pela deusa até o Hades, o reino dos mortos, para onde, segundo a tradição grega sempre foram conduzidos os poetas e adivinhos ou videntes. Ali, Er encontra as almas dos mortos serenamente contemplando as idéias. Devendo reencarnar-se, as almas serão levadas para escolher a nova vida que terão na terra. São livres para escolher a nova vida terrena que desejem viver. Após a escolha, são conduzidas por uma planície onde correm as águas do rio Lethe (o esquecimento). As almas que escolheram uma vida de poder, riqueza, glória, fama ou uma vida de prazeres, bebem água em grande quantidade, o que as faz esquecer as idéias que contemplaram. As almas dos que escolhem a sabedoria quase não bebem das águas e por isso, na vida terrena, poderão lembrar-se das idéias que contemplaram e alcançar, nesta vida, o conhecimento verdadeiro. Desejarão a verdade, serão atraídas por ela, sentirão amor pelo conhecimento, porque, vagamente, lembram-se de que já a viram e já a tiveram. Não se esquecem dela e por isso, para elas, ela é a-létheia, não esquecida. (CHAUÍ, 2008, p.265)
NOTA: alétheia traduzida do grego como verdade, é uma combinação do prefixo de negação a (alfa) e a palavra lethes = velado, encoberto. Então para o grego o verdadeiro era aquilo que fora desvelado, descortinado, colocado à luz, ou como Platão apresenta: o que não fora esquecido.
Desta forma, Platão explica o desejo dos homens pelo conhecimento, ligando o thélos (fim último) de suas buscas com o grau de lembrança que guardam das idéias verdadeiras, conjugando com Sócrates, que o conhecimento não pode ser ensinado, mas apenas, rememorado. E para tanto, o filósofo utiliza-se da técnica dialética, para com ela reavivar essas lembranças.
BIBLIOGRAFIA
CHAUÍ, MARILENA; Introdução à História da Filosofia; 2008; Editora Companhia das Letras; São Paulo.
ROMEYER-DHERBEY, GILBERT; Os Sofistas; tradução: João Amado; Edições 70; Lisboa
CASSIN, BARBARA; Ensaios Sofísticos; 1990; tradução: Ana Lucia de Oliveira e Lucia Claudia Leão; Editora Siciliano; São Paulo;
PLATÃO, 1973; Diálogos – Teeteto; tradução Carlos Alberto Nunes; coleção Amazônica; editora Universidade Federal do Pará; Belém
SANTORO, FERNANDO; O prazer em disputa; 2007; I Seminário de Filosofia Antiga – UERJ; Rio de Janeiro;
PLATÃO; Apologia de Sócrates e Banquete, Coleção a obra prima de cada autor; comentários de Paul Tannery; tradução Jean Melville; 2007; editora Martin Claret; São Paulo;
PLATÃO; Coleção Os Pensadores; 1972; Abril S.A. Cultural e Industrial; São Paulo;
BRISSON, LUC; Leituras de Platão; coleção Filosofia; tradução Sonia Maria Maciel; 2003; editora Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul; Porto Alegre;
PESSANHA, JOSÉ AMÉRICO MOTTA; Platão e as Idéias, cápitulo 2; Curso de Filosofia; organizador Antonio Rezende; 5ª edição; 1986; Jorge Zahar Editor/SEAF; Rio de Janeiro;
PLATÃO; A República, Coleção a obra prima de cada autor; tradução Pietro Nassetti; 2007; editora Martin Claret; São Paulo.
Texto: Intodução à lógica Aristotélica
(Raphaela Bastos)
O termo lógica vem da palavra grega lógos, que inicialmente significava palavra, expressão, razão, mas depois passou a ter um sentido mais amplo e designar a capacidade de racionalização individual.
A lógica clássica é uma ciência que estuda a argumentação, é um campo da filosofia que busca definir as regras para que uma afirmação seja correta em sua construção possibilitando assim que cheguemos a conhecimentos verdadeiros. Foi organizada como disciplina pelo filósofo grego Aristóteles, que determinou a lógica como ferramenta necessária para filosofia já que o objetivo da filosofia seria buscar a verdade sobre as coisas.
Pode ser classificada em formal e material. A lógica formal, também chamada de Lógica Simbólica, preocupa-se com a estrutura do raciocínio. Enquanto a lógica material constitui uma metodologia que determina as vias a serem seguidas para chegar segura e rapidamente à verdade.
Para que possamos compreender como funciona um sistema lógico é preciso o domínio de alguns conceitos:
Proposição – É tudo aquilo que afirma ou nega um predicado de um sujeito.
Premissas - São proposições iniciais de onde parte a investigação lógica.
Inferência – É o processo através do qual chegamos a uma conclusão partindo de uma ou mais premissas.
Axiomas – São sentenças/proposições tidas inicialmente como verdadeiras para que se tenha um ponto inicial para dedução.
Dedução – O método dedutivo ocorre quando numa inferência partimos do universal para o particular. Isto é, quando partimos de um aspecto geral para algo que possua uma característica específica. Ex: Todos os felinos são mamíferos. Todo mamífero é um animal. Todos os felinos são animais.
Indução – Em oposição ao método dedutivo, no método indutivo partimos do particular para o universal. Pode-se dizer que no processo de indução afirmamos acerca de todos, algo que tenha sido observado em alguns. Ex: Estas laranjas são da feira. Estas laranjas são azedas. Todas as laranjas da feira são azedas.
Argumento– Um argumento se dá quando a partir de uma ou mais premissas se segue uma conclusão. O argumento será válido quando as premissas são verdadeiras e se relacionam adequadamente à conclusão.
Falácia – É um argumento logicamente incoerente, infundado, inválido, que não pode comprovar sua alegação. Ex: Todas as peças deste caminhão são leves; logo, o caminhão é leve.
Silogismo – É um sistema definido por Aristóteles como a argumentação lógica perfeita onde a partir de duas premissas se pode deduzir uma conclusão logicamente necessária. Ex: Todo homem é mortal. Sócrates é homem. Logo, Sócrates é mortal.
Analogia – Uma forma indutiva de argumentar a existência, ou não de uma relação de correspondência entre dois ou mais termos. Normalmente expressadas pela regra: A está para B, assim como X está para Y.
Ex: Maçã está para fruta, assim como cenoura está para legume.
Conclusão: De acordo com os termos acima, podemos concluir que a função de um sistema lógico é criar uma regra geral que possa ser aplicada na forma de argumentos coesos e racionais em discussões e mesmo no dia a dia, e que garanta que não nos deixemos enganar por sentenças que possam conter mais de uma interpretação.
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