Análise do Livro XI das Confissões de Agostinho
(Enio Lobo)
Este trabalho visa fazer uma releitura do o livro XI das Confissões de Agostinho, determinando assim a fundamentação das questões por ele levantadas no livro supracitado tornando assim mais clara a sua leitura.O livro do tempo se enquadra na seqüência do livro X( ‘’ O encontro com Deus’’), Agostinho deixa mais de lado seu relato confessionário enquanto histórico e parte para as afirmações filosóficas que a muito lhe provocamsua primeira e não menos interessante questão no livro em seu primeiro capitulo trata-se da pergunta de porque o ato tão comum da confissão ,pois se consideramos Deus enquanto onisciente tal ato se demonstra infundado ou exagerado, isto não ocorre ,para ele, pois o processo de confissão se encontra articulado articula por meio de uma Liberdade em deus, no qual Deus enquanto misericordioso ,se defronta em verdade com o arrependimento de seu filhos e confessar é um ato pelo qual patenteamos nosso amor perante Deus.Em resumo o ato de confessar não se confunde com uma mera descrição de culpa, ele se mostra verdadeiro e realmente necessário perante a verdade do arrependimento.
No capitulo posterior, ele roga a Deus pela purificação de todas suas falas e pensamentos (palavras e mente), para que obtenha um interpretação lúcida e condizente com a verdade de suas leis e de seus mandamentos , para que a verdade e a bem-aventurança circunde todo se escrito, eliminando toda paixão,mentira ilusões e perdulária humanas que possam vir a tomá-lo de assalto,reiterando como dito acima que a verdadeira confissão só se pode pautar na verdade e unicamente nela, pois se não poderíamos considerá-la sem utilidade perante a onisciência divina.Posteriormente ele trata sobre a lei de Moisés, levantando a questão de como devemos tomar por verdade o que a nós foi trazido por Moisés, e na seguida conclui que aquela verdade é a unicamente verdade em Deus, e esta verdade independe da enunciação feita por Moisés, não devendo ser questionada,devendo ser entendida.Pede por conseguinte, que se foi dada a permissão à Moises para enunciá-las, que lhe seja permitido compreendê-las se for da vontade de Deus.
No capitulo 4, nos deparamos com uma das afirmações mais fortes das confissões : ‘’Ainda mesmo o que não foi criado e todavia existe nada tem em si que antes não existi-se.’’, esta é a tradução em uma frase da base da compreensão Agostiniana da teoria da criação, sendo que para ele,na criação, as criaturas foram retiradas do nada em um único momento,um instante de criação unificado, e enquanto algumas já se encontravam criadas em sua perfeição, outros por sua vez encontravam-se incompletos, sendo entretanto dotados de rationes seminales (virtudes evolutivas intrínsecas), capacidade esta responsável pela transição da matéria bruta para os animais, e dos animais para o primeiro Homenideo. Enfim,ele considera que tudo foi criado, e nada existia antes de existir. Nesta afirmação surge a base do próximo capitulo, ‘’A palavra criadora’’.
No capitulo citado no final do parágrafo anterior, Agostinho vem a discutir materialidade básica que tornou possível a criação, pois artífice pode impor forma à matéria, mas se não podemos considerar anteriormente a existência um artífice, e não podemos conceber a matéria com a qual foi possível moldar algo,cabe aqui então a pergunta de como foi possível toda criação anterior a tudo que foi criado?Portanto,resta a ele a conclusão necessária de que pronunciou-se Deus, e ele ordenou a criação e os seres assim foram criados.,portanto,Deus tudo criou a partir do Verbo(Palavra divina).
Existe a clara necessidade lógica de diferenciar as palavras de criação( consideradas transitórias e passageiras), do verbo divino( que permanece sobre eternamente entre nós).E se nos basearmos somente a partir das palavras, é claramente necessário um ‘’algo material’’ no qual a ordem determinada perpassou e correu através da linha do tempo, contudo devemos admitir que este algo material, foi criado entretanto não por meio da voz passageira(palavra), reiterando a questão de qual palavra teve sua pronuncia dada para gerar ser na matéria com a qual formou aquelas palavras.
Ele na seqüência chega a conclusão que o verbo de Divino não possui instância passageira ou meramente transitória , é algo basicamente imortal e eterno. Portanto perante verbo de Deus nada se perde ou passa por troca ou substituição, a Palavra de Deus é coeterno com ele,não anterior ou posterior, mas realmente coeterna, diz tudo que diz de forma eterna, e não diferencia o Dizer e o criar, o que não é de forma alguma se realiza na simultaneidade. perdurando perante toda eternidade, somente que o verbo de Deus é eterno e simultâneo.
Para Agostinho, tudo que tem inicio na existência e deixa de existir, se principia esse encerra quando se encontra na Razão eterna divina.Portanto,o verbo de Deus se encontra e è o principio de todas as coisas.Mesmo que sejamos atingidos de alguma forma pela fala da criatura mutável, somos sempre encaminhados a única verdade imutável(a verdade de Deus)onde finalmente aprenderemos a verdade da eternidade e imutabilidade de Deus, perante a mentira e transitoriedade do que a muito nos cerca.
Em seu capítulo 10, Agostinho vem a tratar da questão sempre levantada acerca da anterioridade das ações Divinas no período anterior criação, questionando desta forma a razão de sua ação criadora,e sobre a origem de sua vontade criadora.É necessário entender que a vontade divina não é uma criatura.,é anterior a toda criatura, essa vontade faz parte da própria substância de Deus ,Deus garantiu a criação de um ato eterno de volição, as coisas existem perante inteligência divina desde toda eternidade enquanto idéias, e só aparecem enquanto determinado por sua volição.
Na seqüência Agostinho nos lança a questão sobre a não eternidade da criatura,questionando o fato se a vontade criadora ser eterna,e a criatura não o ser? Para Agostinho aqueles que chegam ao ponto de fazer este questionamento não entendeu o que se faz por Deus e em Deus, caindo no erro de tentar compreender as coisas eternas, a partir da vã e mutável compreensão de suscetibilidade. Na verdadeira compreensão da eternidade ao contrário da nossa interpretação mundana, nada passa , tudo é presente, entretanto para nós é praticamente impossível entender um presente sem passado ou futuro entretanto dotado de toda realidade.
Para compreendermos o que Deus fazia antes da criação podemos considerar o Não sei, ou basicamente acreditar ou entender que ele nada fazia, pois caso algo ele fizesse já seria uma criatura, logo,Deus não fazia criatura alguma até fazer alguma criatura.Para realmente compreender esta explicação é necessário ter a capacidade de abstrair ao máximo toda a idéia pré-formada de nossa temporalidade.
Sendo Deus, o criador mesmo do tempo, questionar as ações anteriores a criação não faz sentido, pois se não havia tempo(pois ainda não criado) não existia antes ou depois para determinar.Deus precedeu o tempo, pois é ele anterior a todo o tempo. Deus permanece imutável, e não existe morte de seus anos, ao contrário dos nossos que vem e vão , os anos divinos existem em concomitância, não se perpassando e abandonando uam ao outro como o nosso tempo. O a eternidade de Deus é o Hoje, e o Hoje de Deus é a eternidade , ele criou todos os tempo ,em um tempo que não havia tempo, por assim dizer, .Não há então tempo em que Deus nada fazia, pois ele próprio fez o tempo sendo anteriormente lógico a ele.
Sendo o tempo diferente da eternidade se faz necessária a compreensão do que é o tempo,premissa básica que será abordada no capitulo 14 e posteriores.
Agostinho então enuncia uma de suas mais famosas formulações sobre a essência do tempo: ‘’Se ninguém me perguntar, eu sei ; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei’’.Entretanto,mesmo sobre esta premissa, ele se arrisca afirmar que se nada mais houvesse, não haveria tempo futuro, e se nada houvesse, não existiria tempo presente.
Posteriormente, ele questiona a possibilidade da existência do passado e do futuro, pois sem a garantia da existência de ambos, o presente não se configuraria como presente mas sim como eternidade como visto anteriormente.Agora se o presente depende do passado, como é possível que fundamentemos sua existência tendo como base a mesma causa de seu colapso e deixar de existir.É importante ressaltar que o tempo estudado por Agostinho é o tempo psicológico,em sua apreensão, e não em seu aspecto ontológico, como é em si mesmo.
Acerca do tempo só existe a real possibilidade de tratar dele no passado ou no futuro ,o que é gera em todos uma certa estranheza considerando o fato do futuro ainda não existir, e o passado não existir mais.A presentidade mesma do tempo presente, pois se o afirmamos enquanto ano, ele pode ser diminuído a dias,se resumido a dias, pode se resumir a horas e assim sucessivamente até a menor de suas enunciações possíveis .Ainda assim, com todos os problemas levantados no parágrafo anterior, apreendemos concepções temporais, temos a capacidade de adjetivá-las elas e tratamo-las como mais longas e mais curtas, organizamos um sistema de medição, como se trabalhássemos com uma presentidade e temporalidade mensurável em um determinado quadro de mudanças ou giros de ponteiros.
Entretanto, devemos considerar que muitos vem a nós tratar ou profetizar sobre fatos futuros, emas geralmente ainda narrar sobre fatos já ocorridos ,fatos passados, nos fazendo perguntar como poderíamos narrá-los ou prevê-los caso não existissem? Portanto eles existem de fato, e negar sua existência contrariaria toda a lógica de tudo que aprendemos desde cedo ,o que se demonstra como um risco perigoso.Surge a questão, portanto, de onde podemos localizar o futuro e passado enquanto tempos presentes. A pré-concepção do futuro, existe enquanto possibilidade explicativa no passado,e enquanto vaticíneo no presente, o futuro pré-concebido na verdade é um tipo de pré-meditação, um prognóstico, pensamentos de causa, esses acontecimentos não são futuro realmente, mas respostas simples ,pré-meditadas, baseadas no presente e nas informações adquiridas.
Quanto ao passado a existência é garantida pela representação de imagens e palavras da mente efetivadas pela memória, não existem enquanto passado , mas enquanto ativações da memória em tempo presente.Em resumo o passado se constitui como articulação do tempos presente através de concepções adquiridas através da memória, ou seja, assim como o futuro o passado é um compendio de informações.Concluindo o que foi discutido, a terminologia tripartite (formada pelos três tempos Presente ,futuro e passado), é incorreta, os temos ideais seriam:Presente das coisas passadas, presente das presentes e presente das cosias futura. Entretanto a terminologia anterior( presente, futuro e passado) quando usada em nosso lidar diário não se demonstra descartável, pois apesar de sua inexatidão nos serve para compreensões mínimas e diariamente úteis.
No 23º parágrafo do livro XI ,Agostinho buscou distinguir as concepções de temporais, afirmando que não é seu objetivo compreender o tempo em sua temporalidade astronômica, o tempo astronômico é se configura como a mensuração do tempo pelo Sol, o que é totalmente diferente da configuração do tempo metafísico e do tempo psicológico por ele tratado, pois para ele a compreensão de tempo no espaço configurada através das determinações astronômicas não lhe desperta interesse. E ele também objetiva deixar de lado a concepção de tempo como movimento dos corpos, pois se difere corretamente a medida do tempo do movimento e o próprio movimento em si, portanto o tempo não é movimento de corpos.Nos dois parágrafos seguintes, ele clama a Deus pela permissão de entender melhor as verdades do tempo e dessa forma clarear suas idéias, pois no até aquele momento só conseguia conceber o tempo como distensão, e ignora o que mede, só sabe que mensura sem saber o que é mensurado.Esta concepção ainda primária do tempo, se configura com o tempo formado por elementos de transitoriedade e de permanência, não se identificando com o movimento dos corpos, e que só pode ser entendido até o momento em sua distensão.
Agostinho visa, no livro XI, reunir sua base religiosa com muito das concepções temporais anteriores a ele e ,dessa forma, concluir interressantes concepções sobre a temporalidade e os pormenores que a ela cercam, chegando a conclusão ,que a temporalidade só pode ser compreendida através da anterioridade do Deus criador sobre o tempo. Somado a isso discute termos diversos e por menores das concepções o que enriquece de forma ampla todo o estudo trabalhado por ele neste livro.E Dessa forma abre caminho para o livro XII que virá a tratar da criação.
Bibliografia:
AGOSTINHO (Santo) (1973), Confissões, tradução de J. Oliveira Santos, S.J. e A. Ambrósio de Pina, S.J., in Os Pensadores, Vol.6, Rio de Janeiro:Editora Abril, 356p.
Gente, resumidamente posso dizer que o que difere Santo Agostinho de São Tomás é a fé enquanto sentimento vivido e não o dever imposto pela instituição?
ResponderExcluirÉ isso mesmo, aliás a ética de São Tomás é considerada a ética do dever cristão.Estamos sentindo pelas suas observações anteriores que você tem uma boa noção do tema, parabéns.
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